Empresários e lideranças do Transporte Rodoviário
de Cargas reuniram-se durante dois dias no Auditório
Nereu Ramos, da Câmara dos Deputados, para examinar
e debater as propostas do setor com vistas ao disciplinamento
legal da atividade. A escolha do local de realização
do Seminário não poderia ter sido mais feliz,
visto que praticamente todos os problemas que afligem os
empresários de transporte e os transportadores autônomos
têm a sua origem na falta de um tratamento legal adequado,
o que foi claramente percebido pelos inúmeros parlamentares
que se fizeram presentes ao evento.
As
entidades organizadoras que subscrevem esta nota sentem-se
no dever de, em primeiro lugar, agradecer a acolhida com
que o setor foi distinguido, a começar pela presença
do senhor presidente da Casa, Deputado AÉCIO NEVES,
na sessão solene de abertura, e pelo compromisso
público assumido por ele de dar tramitação
célere às propostas que resultarem desse Seminário,
tendo em vista a reconhecida importância estratégica
da atividade para o desenvolvimento econômico e social
do nosso país.
Cabe
registrar e agradecer, também, a demonstração
de aguda sensibilidade para os problemas do setor evidenciada
pelo Senhor Presidente da Comissão de Acompanhamento
do Código de Trânsito Brasileiro, Deputado
ARY KARA e pelo Senhor Presidente da Comissão de
Viação e Transportes, Deputado PHILEMON RODRIGUES,
que, secundado por diversos outros ilustres membros da mesma,
abriu suas portas não só para priorizar a
tramitação da matéria, como até
mesmo para assumir a sua iniciativa, caso tarde em demasia
a remessa a esta Casa da mensagem do Poder Executivo, nos
termos do compromisso assumido por Sua Excelência
o Senhor Ministro dos Transportes.
Como
ficou fartamente evidenciado ao longo dos debates, o disciplinamento
reclamado pelo setor, está alinhado com a tendência
mais recente nos países desenvolvidos. O que se deseja
é que o Estado brasileiro resgate uma dívida
de muitas décadas e reconheça o equívoco
histórico de ter permitido que o desenvolvimento
do Transporte Rodoviário de Cargas em nosso país
ocorresse à míngua e à margem de qualquer
tipo de regulação de seus aspectos econômicos.
Esta
opção histórica, geradora de uma competição
selvagem e sem regras, se, de um lado, garantiu talvez os
fretes rodoviários mais aviltados do planeta, de
outro, produziu toda sorte de mazelas: uma frota de caminhões
perigosamente envelhecida e mal conservada; motoristas despreparados;
empresas descapitalizadas e transportadores autônomos
empobrecidos que, na tentativa de sobreviver em ambiente
tão hostil, acabam, involuntariamente, alimentando
as nossas estatísticas de acidentes no trânsito,
agredindo o meio ambiente e conspirando contra o esforço
nacional de conservação de energia não
renovável.
É
ingênuo supor que se possa superar este quadro com
medidas ditas de regulamentação técnica
e de segurança. Estas existem até em demasia,
carecendo mesmo de um reexame que as possa racionalizar
e atualizar. Ocorre que elas resultam inócuas e sucumbem
de forma melancólica diante da ausência de
uma ordenação mais corajosa, que enfrente
as causas deste estado de coisas.
Ao
contrário dos que acreditam que a ação
seletiva das "leis de mercado" seja o único
remédio para situações como esta, a
lição aprendida ao longo de muitas décadas
de convívio com os resultados práticos desse
equívoco mostram a imperiosa necessidade de o Estado
brasileiro, através de seus poderes constituídos,
romper a inércia que o tem caracterizado neste campo,
exercendo em toda a plenitude o seu papel regulador; não
na defesa dos interesses particulares de uma categoria econômica,
mas no atendimento dos mais legítimos anseios da
sociedade, que quer um transporte eficiente, sim, mas sem
que tal eficiência tenha como contrapartida um preço
tão alto como o que tem sido pago até aqui,
em razão das distorções já referidas.
Mesmo
porque o conceito de QUALIDADE TOTAL, forjado no embalo
do processo de globalização, não admite
tais disfunções. A suposta eficiência
decorrente de um transporte rodoviário bom e barato
pode atender às conveniências de curto prazo
de alguns usuários com grande poder de barganha.
Mas resulta incrivelmente ineficiente, predatória
e agressiva quando examinada sob a ótica dos interesses
nacionais permanentes.
Não
bastassem todos os problemas antes referidos, a situação
presente impede, na prática, que a intermodalidade
prospere entre nós. Não haverá racionalidade
em nossa matriz de transporte enquanto o modal rodoviário
não for submetido a uma ordenação legal
que o discipline minimamente.
Por
outro lado, o flagelo do roubo de cargas, cujo nível
inusitado e insuportável deu origem a uma CPI mista
do Congresso Nacional, ora em funcionamento, também
tem as suas raízes no estado de orfandade jurídica
que tem caracterizado o Transporte Rodoviário de
Cargas em nosso país. Por isso mesmo, independentemente
de tantas outras medidas indispensáveis na área
da Segurança Pública, só um disciplinamento
eficaz poderá criar as condições necessárias
para que este quadro comece a ser revertido.
Justifica-se,
pois, fartamente o lema que inspirou este Seminário:
"DISCIPLINAMENTO JÁ!"
Quem
pode ser contra ele? Talvez alguns poucos teóricos.
E, certamente, todos os ladrões de carga, traficantes
de drogas e contrabandistas deste país, que até
hoje têm visto prosperar os seus negócios ilícitos
à sombra do ambiente propício de um mercado
sem regras, em que a propriedade ou a posse de um caminhão
não impõe qualquer responsabilidade ao seu
detentor, nem lhe submete a qualquer tipo de controle.
Ao
cabo deste Seminário, fica a certeza de que este
quadro está com os seus dias contados, graças
à mobilização irreversível do
setor e, sobretudo, à inegável sensibilidade
política dos membros desta Casa.
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