Perigo nas curvas


Por que não evitar desastres previsíveis?

Ardevan Machado
Prof. Dr. em Engenharia pela Escola Politécnica da USP

Quando mocinho morava próximo à av. Angélica. Uma tarde, regressando da Poli, presenciei uma cena dantesca: um ônibus da Linha Avenida tombou e se incendiou. Inúmeros passageiros, no pânico que se estabeleceu, morreram carbonizados. Foi um quadro tétrico.
Para evitar tragédias iguais, sugeri em 1954 portas de emergência nas partes traseira e dianteira dos ônibus. Nada consegui, embora esses dispositivos já existam na França e nos Estados Unidos. No Brasil, centenas de inocentes morreram queimados e afogados em ônibus que caíram em rios.
Em 8 de março de 1957sugeri ao DENATRAN de São Paulo a instalação obrigatória do protetor traseiro (vide figura 1) para caminhões.



Muitos eram os acidentes com veículos que entravam sob caminhões, sendo seus motoristas decapitados. Essa proposta foi aprovada pelo D.S.T. de São Paulo em 9 de março de 1961. Salvou muitas vidas inclusive a de meu filho. Somente em 1995 o CONTRAN do Distríto Federal aprovou essa idéia.
As Curvas de Alto Risco
O DENATRAN, Departamento nacional de Trânsito, publicou que em 1996 houve, no Brasil, 53.655 acidentes, com 8.100 mortos.
Em São Pauloa CPTran-CET publicou os dados da figura 2.


A Lei da INÉRCIA da FÍSICA, obriga o veículo a sair pela tangente à curva. No caso de uma motocicleta, o piloto, ao ingressar em uma curva, por instintoinclina seu corpo com a moto para dentro, trazendo-a para dentro da curva. Assim, ele controla a lei da INÉRCIA, que o obrigaria a manter a trajetória retilínea (da tangente à curva), e que não o sujeitaria à Força Centrífuga. Ao corrigi-la, o motociclista cria uma força centrípeta, evitando o acidente.


No caso de um veículo de quatro rodas, a única maneira de vencer a Lei da INÉRCIA (figura 3) é a de sobrelevar a guia do lado externo da curva. (figura 4). A curva é para a direita e a sobrelevação é da guia esquerda.


Vemos, pela figura 4, que o carro está protegido ao entrar na curva.
No Brasil, inexplicavelmente, há anos, as curvas são feitas convorme indicado na figura 5. O carro "B" está protegido mas o carro "A" corre sério risco de sofrer um acidente. É a chamada "CURVA DE ALTO RISCO".
Outro ponto importante é o de construir superfícies de transição entre os trechos em reta e em curva, já que essa deve ser inclinada. Isso é obtido pela inserção de uma superfície "regrada", em que a diretriz transversal sairia da horizontal e atingiria o máximo de inclinação no início da curva. Após essa terminada, nova superfície regrada faria a transição para o trecho em reta que sucederia, voltando para a posição horizontal. Isso é que se faz no primeiro mundo.
Em São Paulo existem 70 CURVAS DE ALTO RISCO, cadastradas pela CET, a meu pedido em 1994 consegui, sem ônus para a prefeitura, sobrelevar 20. Nessas, como por encanto, cessaram os desastres e muitas vidas foram salvas. Em 6 anos, colecionei 500 reportagens sobre desastres. Razão tinha Gilberto Amado quando dizia: "...teria grande satisfação ao encontrar um brasileiro remotamente capaz de ligar causa e efeito".
Sinto que algo me ajudará a sobrelevar todas as CURVAS DE ALTO RISCO, pondo fim a essa interminável "via curvis", iniciada em 1970

 

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