O pedágio caro e a ausência
de fiscalização do vale-pedágio constituem
graves barreiras aos programas oficiais de privatização
de rodovias
Apesar
dos inesperados obstáculos enfrentados pelos planos
oficiais, que previam a concessão à iniciativa
privada de 23 mil quilômetros de estradas, o Brasil
já detém o pouco invejável título
de campeão mundial de rodovias pedagiadas.
Da malha pavimentada, de cerca de 170 mil quilômetros,
nada menos do que 9,5 mil (5,5% do total) já estão
nas mãos da iniciativa privada. Nos países
do primeiro mundo, esse percentual raramente ultrapassa
2%. Mesmo a Argentina, que largou na frente do Brasil na
corrida pela 'privatização', tem 9.000 km
de rodovias concedidas. Outros países como Estados
Unidos (7.150 km), França (6.500 km) e México
(6.400 km) também já estão comendo
poeira.
Porém, a conjugação de fatores como
a cobrança de elevados direitos de exploração,
fixação de tarifas acima dos benefícios,
exigência de prestação de serviços
caros e sofisticados aos usuários, financiamento
dos investimentos com a própria arrecadação,
ausência de incentivos fiscais, fiscalização
deficiente, elevadas taxas de retorno e insensibilidade
para com as dificuldades dos carreteiros poderão
criar dificuldades imprevistas para o futuro do plano.
Em quase todos os países que adotam a política
de concessões, cabe à concessionária,
apoiada, muitas vezes, por isenções fiscais,
congelamento de câmbio ou até mesmo por subsídios
diretos, construir uma via expressa de alto padrão,
operá-la por um determinado período, durante
o qual fica autorizada a cobrar pedágio, para transferi-la,
no final do contrato, ao poder público.
No Brasil, a extinção do Fundo Rodoviário
Nacional e a desvinculação de recursos decretados
pela Constituição de 1988, aliadas à
falência do Estado, levaram o governo a recorrer à
iniciativa privada para conservar e, quando muito, melhorar
e ampliar, rodovias já construídas de maior
movimento. Em suma, a chamada "privatização"
contribuirá muito pouco para ampliar a malha rodoviária.
Iniciado em 1995, com a concessão da Ponte Rio-Niterói,
o programa federal entregou à iniciativa privada
apenas 856,4 km de rodovias de pistas duplas. Em todas elas,
as concessionárias ficaram obrigadas a instalar onerosos
sistemas de comunicação por meio de cabos
de fibra ótica; e de socorro médico e mecânico.
Mais ambiciosos, Estados como São Paulo, Rio de Janeiro,
Paraná e Rio Grande do Sul passaram a cobrar o chamado
"ônus sobre a concessão", em forma
de dinheiro ou de conservação de trechos adicionais,
até mesmo em rodovias já existentes de pistas
simples.
Além de pagarem este ônus, as concessionárias
não gozam de nenhum incentivo fiscal e não
têm como fugir da pesada carga tributária,
inclusive do ISS. A maioria delas não conta com capital
próprio e acaba financiando as obras de recuperação
da estrada com os recursos do próprio pedágio
ou por meio de onerosos empréstimos.
Para complicar mais as coisas, todos os estudos de viabilidade
adotaram elevadas taxas de retorno (no mínimo 18%
ao ano); e convencionaram que cada eixo de caminhão
deveria pagar tarifa equivalente à de um automóvel.
Em suma, não se levou em conta a viabilidade do pedágio
para os usuários, mas apenas para as concessionárias.
Prova disso é que somente agora tramita no Congresso
Nacional a lei que cria a ANT - Agência Nacional dos
Transportes, que terá, entre outras, a missão
de fiscalizar as concessões. Mesmo as chamadas comissões
tripartites, embora obrigatórias por lei, somente
foram criadas em raríssimas das rodovias concedidas.
Preparou-se, portanto, mesmo que involuntaraimente, um terreno
fértil para que proliferassem pelo Sul e Sudeste
do país pedágios exorbitantes. Isso onera
o custo Brasil e favorece a migração das cargas
para outros meios, como o trem e o navio
Pode-se alegar que, convertidas em dólar, as tarifas
cobradas no Brasil pouco diferem das praticadas no exterior.
É fato. Porém, enquanto lá se paga
pela construção de estradas de alta qualidade,
aqui se cobra pela conservação ou, quando
muito por alguma melhoria em modestas rodovias já
construídas com o dinheiro público.
Pode-se argumentar ainda que as concessionárias melhoraram
o estado de conservação das pistas e que isso
resulta em redução de custos operacionais
para transportadoras e autônomos. Na teoria, isso
é verdade. Pode-se provar, no entanto, que este benefício
(de cerca de 15 a 20%, quando se recupera completamente
uma estada em más condições), embora
real, é inferior ao pedágio de São
Paulo, por exemplo.
Mais ainda: na prática, a teoria é outra.
Provavelmente, qualquer carreteiro pode sentir no bolso
a economia dos custos variáveis (como diesel ou pneus)
quando a estrada está bem melhor. No entanto, num
mercado competitivo como o de fretes, de pouco adianta ao
autônomo reduzir, por hipótese, em uma hora
o tempo de uma viagem. Dificilmente isso vai se refletir
em maior número de viagens, pois a oferta não
vai aumentar por causa disso.
Os resultados dessa falta de sensibilidade oficial foram
sucessivas e tumultuadas paralisações de caminhoneiros,
que tiveram reflexos profundos na política de concessões
rodoviárias.
Primeiro a sentir o golpe, o governo federal respondeu suspendendo
as concessões programadas para todo o País,
exceto para o Sul e o Sudeste, onde insiste em entregar
à iniciativa privada, novinhas em folha, a Fernão
Dias e a Rodovia do Mercosul, ambas construídas e
financiada pelo governo.
Em São Paulo, a boa notícia é que o
governo de São Paulo encerrou o programa de concessões
nos 4.408 km e doze lotes da primeira etapa. Os nove demais
lotes, somando 1.152 km, que constituiriam a segunda etapa
permanecerão nas mãos do Estado.
O aprendizado funcionou também para Minas Gerais,
que vem adiando sucessivamente seu programa de concessões
e vai cobrar por eixo de caminhão apenas 75% do pedágio
de um automóvel.
Outro fruto das greves dos autônomos foi a criação
por lei do vale-pedágio, que transfere integralmente
a cobrança das tarifas para o dono da carga (embarcador).
No entanto, como toda providência apressada, a implantação
prática do vale-pedágio enfrenta grandes dificuldades
práticas, especialmente de fiscalização.
Nada impede, por exemplo, que o embarcador autorize o destaque
do valor do pedágio no conhecimento, mas acabe subtraindo-o
do frete.
Esta é uma situação a ser enfrentada
com coragem pelo governo, não só para desarmar
novas bombas-relógio, como também para remover
graves obstáculos aos seus ambiciosos planos de privatização
de rodovias.
por
Neuto Gonçalves dos Reis
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