HUGO
LEAL
Deputado Federal (PSC/RJ) - Advogado. Ex- Deputado
Estadual pelo Rio de Janeiro. Ex-Presidente do DETRAN/RJ.
Ex- Secretário de Administração
e de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Exerce
seu primeiro mandato na Câmara dos Deputados
com raro destaque. É líder de seu partido
e Coordenador da Bancada Fluminense no Congresso Nacional.
O parlamentar mais atuante e produtivo nos assuntos
pertinentes ao trânsito. Membro da Comissão
de Viação e Transporte, da Comissão
de Constituição, Justiça e Cidadania
e da Comissão de Segurança Pública.
Ocupa a Vice Presidência da Frente Parlamentar
em Defesa do Trânsito Seguro. É autor
do Projeto de Lei que estabelece a prestação
de serviços às equipes de socorro e
resgate, como pena alternativa para aos condenados
por crimes de trânsito e autor também
da Lei 11.705/08 que estabeleceu a alcoolemia zero
para condutores de veículos.
Vice-presidente
da Frente Paralmentar em Defesa do Trânsito
Seguro e relator da Lei que acabou com a tolerância
para quem dirige alcoolizado, Hugo Leal defende mais
fiscalização, fala dos acidentes com
motocicletas, da sinalização dos radares,
"escravidão " sobre rodas e vários
outros temas
Confira
a entrevista:
1 - O balanço do terceiro mês
de vigência da Lei 11.705 - que implantou a
tolerância zero no consumo de bebidas alcoólicas
por condutores - indica claramente um novo avanço
no número de acidentes e certo retrocesso nas
ações de fiscalização.
Qual a razão desse fato e o que fazer para
manter o mesmo padrão de eficiência na
fiscalização demonstrada no início?
Em minha opinião
ainda é cedo para uma avaliação
precisa dos efeitos da Lei 11.705/08. Tanto os índices
negativos registrados em quase todo o país
nas primeiras semanas de sua vigência, assim
como o avanço notado no balanço do terceiro
mês podem ser reflexos de alguns aspectos pontuais.
É preciso um espaço de tempo entre seis
meses e um ano para uma comparação aceitável.
Entretanto, estou convencido
que o sucesso da Lei 11.705/08 pode ser creditado
a três fatores combinados: sua simplicidade,
a aceitação da sociedade da opinião
pública e a eficiência da fiscalização.
É esse tripé o que vai dar a sustentação
para que as ocorrências trágicas envolvendo
condutores alcoolizados reduzam drasticamente.
Como a lei continua simples
em sua aplicação e a opinião
pública não mudou, só podemos
creditar esse eventual retrocesso na queda dos números
a um afrouxamento da fiscalização.
Preocupado com essa possibilidade,
encaminhamos aos Ministérios da Justiça
e das Cidades uma recomendação para
que promovessem um amplo debate com todas as estruturas
de fiscalização de trânsito do
país (policia rodoviária federal, policias
militares, policias civis e DETRANs) de forma a padronizar
as ações e os procedimentos de abordagem,
identificação e enquadramento de condutores.
2 - O governo federal já tem pronto
um projeto de reformulação do Código
de Trânsito Brasileiro. A decisão final
caberá, naturalmente, ao Congresso nacional.
Como um dos líderes da Frente Parlamentar em
Defesa do Trânsito Seguro, em sua opinião,
quais são os pontos considerados fundamentais
do CTB atual que exigem mudanças.
Tivemos a oportunidade de
discutir a reforma do Código no Comitê
Nacional de Mobilização pela Saúde,
Segurança e Paz no Trânsito, fórum
que reúne entidades expressivas da sociedade
e no qual represento o Congresso Nacional. Nossa posição
é unânime na questão da atualização
dos valores das multas, na severa punição
para os crimes de trânsito (parcialmente atendida
pela Lei 11.705/08) e no maior controle da circulação
das motocicletas, cujos registros de acidentes têm
crescido de forma assustadora. Há muitos outros
aspectos importantes no projeto que serão adequadamente
tratados e decididos quando a matéria chegar
ao Congresso para votação.
3 - Qual a posição da Frente
Parlamentar quanto aos recursos previstos para educação
no trânsito e que estão sendo desviados
e contingenciados pelo Governo?
Somos integrantes do Poder
legislativo e por uma questão de coerência
somos defensores da lei e de seu cumprimento. O Código
de Trânsito Brasileiro tem muitas virtudes,
mas, em minha opinião, a mais expressiva delas
foi a criação de uma fonte própria
de recursos para financiar o sistema, notadamente
no campo da educação, da fiscalização
e do policiamento de trânsito. Essa fonte é
mantida por pequena parcela das multas cometidas em
todo o país (5%) e por percentual idêntico
do seguro obrigatório dos veículos automotores.
Foi uma forma inteligente, concebida pelos legisladores
da época, para garantir recursos exclusivos
permanentes para o setor. Ou seja, é o infrator
o próprio financiador do sistema que o controla.
Pois bem, esses recursos
têm destino certo e devem ser rigorosamente
aplicados como determina o CTB nos parágrafos
2º. e 3º. Do artigo 1º, no parágrafo
único do artigo 78 e no artigo 320 e seu parágrafo
único. Com índices tão elevados
de acidentes de trânsito em nosso país,
não cumprir a risca o que determina a lei é
conduta passível das sanções
decorrentes e um verdadeiro desprezo à vida.
4 - Acidentes com motocicletas estão
criando um cenário de aumento contínuo
de acidentes e mortes de jovens no trânsito.
O que pode ser feito para reduzir os acidentes com
motocicletas?
Essa também foi uma
preocupação do Comitê Nacional
de Mobilização pela Saúde, Segurança
e Paz no Trânsito. É opinião unânime
que haja maior controle sobre a exploração
da atividade comercial no transporte de pequenas cargas
por motocicletas e normas mais rígidas de circulação.
O projeto de reforma do
CTB, assim como alguns projetos de lei em tramitação
no Congresso, já contemplam algumas medidas
profiláticas nesse sentido.
5 - Como parlamentar que tem como uma de suas
principais bandeiras a defesa da vida no trânsito
e a tranquilidade da circulação viária,
qual é sua opinião sobre a Resolução
214 do CONTRAN que exige a obrigatoriedade da sinalização
ostensiva dos controles de velocidade, eliminando
o FATOR SURPRESA nos controles efetivos?
Somos declaradamente contrários
a essa medida do CONTRAN e sua modificação
está prevista nas recomendações
do Comitê Nacional de Mobilização
pela Saúde, Segurança e Paz no Trânsito
para a revisão do CTB. A sinalização
deve apenas indicar a velocidade máxima permitida
e informar que seu controle é feito eletronicamente.
Sinalizar pontualmente onde o equipamento está
instalado é definir o limite apenas naquele
trecho, liberando a velocidade para o resto do percurso.
É importante também
destacar que a maioria dos motoristas dirige respeitando
os limites de velocidade. Portanto, não estão
preocupadas com a sinalização do radar.
A sinalização ostensiva beneficia apenas
quem não respeita os limites ou não
fica atento a sinalização da via. Quando
sinalizamos ostensivamente a presença do equipamento
de controle de velocidade acabamos por permitir ao
infrator reduzir a velocidade apenas naquele ponto,
voltando a acelerar imediatamente após com
a certeza da impunidade.
6 - O tacógrafo , permite saber a velocidade
praticada, a distância percorrida e o tempo
de direção. As informações
registradas no disco tem sido utilizadas para comprovar,
o excesso de velocidade praticado por motoristas em
caso de acidentes com vítima fatal e excesso
de jornada na Justiça do Trabalho. Curiosamente,
embora sirva de prova incriminatória na justiça
comum e de horas trabalhadas na Justiça do
trabalho, o Denatran diz que, com base em portaria
do Contran, o tacógrafo não serve para
multar por excesso de velocidade um motorista de caminhão
ou ônibus que trafega , muitas vezes, por horas
em excesso de velocidade. Isso não contribui
para desmoralizar os agentes de trânsito e proteger
empresas que obrigam seus motoristas a realizar longas
viagens em excesso de velocidade?
Não devemos esperar
por alterações no CTB ou por edições
de Medidas Provisórias para agir, quando se
trata da preservação da vida no trânsito.
Nesse sentido o Poder Executivo, através do
CONTRAN e do Denatran, pode resolver a questão.
O primeiro, estabelecendo a norma e, o segundo, implementando-a
e determinando aos órgãos de fiscalização
do sistema nacional de trânsito que cumpram
com o seu dever.
Não é razoável
que um motorista infrator possa ser punido criminalmente
pelo excesso de velocidade, mas não possa ser
administrativamente punido com a respectiva aplicação
da multa.
Porque esperar que o acidente
aconteça para usar um instrumento tão
útil na fiscalização quanto o
disco diagrama do tacógrafo? Ele representa
a "caixa preta" dos veículos de transporte
de carga e de passageiros é equipamento obrigatória
e vem de fábrica, sem custo para a sociedade.
7 - Recentemente um procurador do Ministério
do Trabalho, ao descobrir que os motoristas de caminhão,
principalmente autônomos, estavam dirigindo
em média 90h por semana, tentou limitar a jornada
para 48h semanais. Num país que fala em acabar
com o trabalho escravo, não estamos sendo tolerantes
com a escravidão sobre rodas, que inclusive
contribui para o aumento dos acidentes?
Sem dúvida. Não
há argumentos plausíveis que justifiquem
risco de vida e possibilidade de matar na estrada
para que os produtos cheguem ao seus destinos um pouco
mais baratos. Aliás, nem o argumento econômico
se sustenta se levarmos em conta o custo dos acidentes
- sempre muito freqüentes nessa competição
insana contra o tempo - que envolve perda de carga,
de veículo, indenizações, etc.
8 - O que a Frente Parlamentar do Trânsito
Seguro pode fazer para evitar que os caminhoneiros
e muitos motoristas de ônibus sejam tratados
como escravos?
Em primeiro lugar aprovar
o Projeto de Lei que desde 1996 tramita no Congresso
Nacional e que estabelece limite de tempo de direção
contínua e diário.
Em segundo, apoiar o Senado
na aprovação do Estatuto do Motorista
Profissional, obra do Senador Paulo Paim, que estabelece
jornada máxima diária e semanal a esse
profissional da estrada, direito esse garantido a
qualquer trabalhador. Além disso, precisamos
garantir o controle da jornada dos autônomos
para evitar abusos que, além de representarem
concorrência desleal às empresas que
respeitem o tempo de direção e jornada,
colocam em risco a segurança de todos que circulam
por nossas vias e rodovias. Inclusive os próprios
motoristas profissionais, sejam eles autônomos
ou empregados.
O que não pode continuar
acontecendo é a sociedade se escandalizar com
o fato do trabalhador rural ser submetido a jornadas
de 14 horas por dia e aceitar passivamente que o caminhoneiro
dirija transportando mais de 10 toneladas, por vezes
até 24 h seguidas, ou que motoristas de ônibus
viajem de São Paulo para o Nordeste, dirigindo
por dias seguidos e dormindo no próprio veículo.
9 - Quase 60% das mortes no trânsito
brasileiro ocorrem nas rodovias, embora a maioria
dos acidentes ocorram em área urbana. Existe
alguma ação específica da Frente
Parlamentar para contribuir com a redução
dos acidentes nas rodovias?
Como já disse na
resposta anterior, aprovar o Projeto de Lei que estabelece
o limite de tempo de direção é
uma das prioridades da Frente Parlamentar. A Frente
também atua sempre em defesa da diminuição
dos acidentes, seja aperfeiçoando os projetos
de lei em tramitação no Congresso, seja
cobrando ações dos agentes públicos.
Por exemplo, a Frente defende mais recursos para que
a Polícia Rodoviária Federal possa ter
melhores recursos humanos e materais, mais equipamentos.
Também cobra das concessionárias de
rodovias mais investimentos no processo de educação
do usuário das vias, entre outras ações.