DR.
ALFREDO PERES
Diretor Geral do DENATRAN.
Leia
os pontos mais importantes da entrevista:
1) Quais os projetos prioritários
da sua gestão, considerando o pouco tempo do
seu mandato?
Alfredo: O desafio é descentralizar ações
atualmente no Denatran para os Detrans, continuar
os programas de educação de trânsito
e concluir os estudos que estão em curso nas
Câmaras Temáticas sempre de acordo com
a Política Nacional de Trânsito aprovada
pelo CONTRAN. É imprescindível a inclusão
de todos os Estados no RENAINF para darmos condição
aos DETRANS de aplicar as penalidades de multa e principalmente
da pontuação diminuindo a sensação
de impunidade.
2) O DENATRAN é um departamento
sem autonomia administrativa e financeira subordinado
a um Ministério novo, o das Cidades ainda em
fase de formação. Entretanto, cabe ao
Departamento, como órgão executivo federal
de trânsito, estabelecer relação
permanente com milhares de organismos públicos
estaduais e municipais em todo o Brasil e, para isso,
dispões de uma estrutura extremamente acanhada
e insuficiente. O que está sendo feito para
enfrentar esse desafio?
Alfredo: Temos consciência que o Denatran atuando
sozinho não terá êxito. Por isso
temos mantido contatos constantes com os Diretores
dos órgãos executivos de trânsito
e rodoviários da união, dos estados
e dos municípios trocando informações
e colhendo sugestões antes de decidir. Por
outro lado o Governo encaminhou ao Congresso Nacional
projeto de lei com a finalidade de transformar o Denatran
em autarquia. O Projeto já passou pelas Comissões
Técnicas da Câmara e será agora
analisado pela Comissão de Justiça.
3) O Código de Trânsito
Brasileiro estabeleceu recursos próprios para
a segurança e a educação de trânsito
oriundo de parcela das multas, O FUNSET. Da mesma
forma, instituiu também recursos específicos
para as campanhas de prevenção de acidentes,
utilizando-se parte dos recursos do seguro obrigatório
(DPVAT). Entretanto desde a posse do governo do Presidente
Lula quase pouco foi aplicado como manda a lei (o
CTB) em função do contingenciamento
imposto pela área econômica para formar
o superávit primário. Esse fato tem
estimulado algumas autoridades de trânsito municipais
a interromper o repasse da parcela das multas, sob
o argumento de que o governo federal não está
cumprindo a lei. O senhor confirma essas afirmações?
Alfredo: Fizemos recentemente um estudo a respeito
fazendo uma retrospectiva desde 2001. Todo Orçamento
do Denatran é oriundo do FUNSET e do DPVAT
e desde a sua criação em 1998 nunca
foi totalmente aplicado. Ressalte-se que este ano
somente para mantermos o sistema Renavam/Renach estaremos
gastando em torno de 68 milhões de reais dos
quais mais de 90% são oriundos de lançamentos
dos Estados e Municípios. A não aplicação
do FUNSET e dos Recursos das multas pelo Denatran
e todos os órgãos estaduais e municipais
já chamou a atenção dos Tribunais
de Contas que começam a cobrar pela sua destinação.
No âmbito do Denatran estamos desenvolvendo
um sistema de controle para ter um quadro completo
da origem e da destinação dos recursos
para maior transparência.
4) Uma das grandes novidades
impostas pelo CTB foi a Inspeção Veicular.
Entretanto, já passados 8 anos da promulgação
do código, a medida ainda não foi implantada.
O que está retardando a decisão?
Alfredo: A Implantação da inspeção
da segurança veicular é anterior ao
Código de Trânsito Brasileiro. Em dezembro
de 1995, o Conselho Nacional de Trânsito (CONTRAN)
publicou a Resolução n° 809/95 que
estabelecia a inspeção obrigatória
a partir de 1998 e exame das emissões de gases
poluentes e ruídos estavam incluídos
entre os itens inspecionados.
Com o advento do novo Código, o CONTRAN revogou
a Resolução 809/95 e regulamentou o
artigo 104 do CTB através da Resolução
n° 84/98 estabelecendo as normas referentes à
Inspeção Técnica Veicular, e
o que diz respeito dos itens de segurança.
Essa Resolução, no entanto, teve a sua
vigência suspensa pelas Resoluções
101/99 e 107/99.
Atualmente, encontra-se pronto para ser votado pelo
Plenário da Câmara dos Deputados, o Projeto
de Lei n° 5.979, de 2001, da Comissão de
Viação e Transportes, estabelecendo
normas referentes à Inspeção
Técnica Veicular. Estamos aguardando a aprovação
do PL.
Entendo que somente através de lei teremos
a efetiva implantação do ITV no Brasil.
5) Como é de seu conhecimento,
mais de 5 milhões de veículos já
foram convocados para recall por possível defeito
grave que compromete a segurança. As montadoras
e importadoras não informam aos Detrans e Denatran
sobre os recalls que realizam. Aproximadamente 50%
dos convocados nunca comparecem, colocando em risco
sua segurança e de terceiros. O que o Denatran
pretende fazer para auxiliar que todos os proprietários
tomem conhecimento do recall e evitar que veículos
sejam licenciados e transferidos todos os anos com
recall por fazer?
Alfredo: O recall já é uma preocupação
das montadoras, já que precisam comprovar sobre
os recalls necessários que precisa realizar.
Ocorre que os órgãos de trânsito
tomam conhecimento da matéria da mesma forma
que os proprietários dos veículos, ou
seja, através da convocação feita
nos principais meios de comunicação,
onde informam o defeito e os veículos que devem
comparecer para o reparo. A inspeção
Técnica Veicular poderá ser utilizada
para verificar, seja no licenciamento, seja na transferência
do veículo, se o proprietário atendeu
a convocação e providenciou o reparo.
6) No livro: Recall, 4 Milhões
de Carros com Defeito de Fábrica, sugerimos
que o Denatran criasse um departamento para investigar
defeitos de fabricação, recebendo as
informações dos consumidores e cobrando
das montadoras e importadoras para enviar os comunicados
de recall a todos os proprietários, advertindo
que nenhum veículo com recall por fazer seria
licenciado. Dessa forma, o Denatran ajudaria as empresas
a conseguirem comunicar a praticamente todos os proprietários,
sem terem que investir fortuna em anúncios
publicitários de resultados limitados e, ao
mesmo tempo, teria recursos para realizar as investigações
de defeitos graves e praticamente conseguiria 100%
de atendimento dos recalls. Qual sua opinião
sobre essa proposta?
Alfredo: De acordo com a lei o fabricante ou o importador
são totalmente responsáveis pela segurança
do veículo. Notando algum defeito devem imediatamente
informar o comprador sobre a necessidade de reparos
ou troca de peças que possam colocar em risco
o condutor. As montadoras têm consciência
da sua responsabilidade e sabe que somente anúncios
pela imprensa não são suficientes é
necessário alcançar o atual proprietário.
Esta é a maior dificuldade. Dentro da sua idéia
já começamos a discutir com as montadoras
como solucionar isso. Seria necessário implantarmos
um sistema que recebendo o número do chassi
dos veículos que necessitam de recall localizássemos
e informássemos o atual proprietário,
lançando a informação também
no cadastro do veículo, dando baixa desse registro
quando o reparo fosse efetivamente executado. No final
discutiremos sobre os recursos necessários
para implantação de tal sistema.
7) Para estabelecer políticas
de redução de acidentes é fundamental
dispor de uma boa base de dados. As estatísticas
do Denatran estão desatualizadas e incompletas.
O que está sendo feito para que tenhamos estatísticas
mais abrangentes, confiáveis e atualizadas
regularmente?
Alfredo: O Denatran está implementando o RENAEST
(Registro Nacional de Acidentes e Estatísticas
de Trânsito), que vem em substituição
ao SINET.
Para este novo sistema foi desenvolvido o "PORTAL
RENAEST" que é um portal de serviços
na INTERNET que centraliza todas as informações
de acidentes e estatísticas de trânsito.
O PORTAL abrigará também um sistema,
baseado em tecnologia WEB, alimentado diretamente
pelos estados e municípios, e consolidado pelo
Denatran.
Ainda neste mês de agosto será realizado
o treinamento dos coordenadores do RENAEST (antigo
SINET) para a operação e alimentação
do PORTAL, que deverá ser liberado para acesso
público a partir de meados de setembro, contanto,
inclusive com as informações estatísticas
de 2003 a 2005. As informações de 2006
já serão registradas no novo sistema.
8- Em todos os estados estamos
registrando crescimento expressivo dos acidentes com
motocicletas e as perspectivas são de que as
mortes em acidentes de motocicletas possam superar
as que ocorrem em automóveis em poucos anos.
O que o Denatran pretende fazer para reverter essa
tendência?
Alfredo: Recentemente, através da Resolução
168/04, O Contran tornou mais rigoroso o exame para
habilitação de condutores de veículos
de duas rodas ( Categoria A) e pretende exigir, futuramente,
um curso complementar para os motociclistas que exercem
atividade remunerada que, por circularem durante todo
o dia, são mais propensos a acidentes.
9- As estatísticas de
acidentes de ônibus no Brasil apontam para índices
que superam, em número de mortos, mais de 500
vezes o número de pessoas que morrem nos EUA
em acidentes de ônibus, apesar da frota deles
ser três vezes maior que a nossa. Há
alguma política específica para reduzir
esse tipo de acidente?
Alfredo: Realmente, o número de acidentes
envolvendo ônibus tem chamado atenção
devendo merecer de todos nós uma análise
mais aprofundada. A aprovação da Lei
que regulamenta o tempo de direção continua
sendo um fator importante para a redução
dos acidentes, até porque envolverá
a fiscalização dos ônibus clandestinos
ou em linhas irregulares, facilitando a fiscalização
nas rodovias.
10- O senhor sempre demonstrou
preocupação com a jornada excessiva
de trabalho dos motoristas profissionais. Há
um projeto na Câmara que aguarda há anos
aprovação e estabelece várias
normas sobre jornada e tempo de direção
contínua. Dentre elas o limite de 4h de direção
contínua. Atualmente, vários estudos
no Brasil e exterior indicam que o tempo máximo
ideal deveria ser de 2h00, no máximo três.
No seu entender a demora na aprovação
de projetos como esse no Brasil não compromete
a segurança e , quando aprovados, correm o
risco de já estarem defasados em relação
aos princípios de segurança?
Alfredo: O Projeto de Lei que trata do tempo de direção
encontra-se na mesa da Câmara para votação
final e posterior sanção pelo Presidente
da República. Apesar de ter tramitado por quase
dez anos, não creio que ele corra o risco de
chegar defasado em relação aos princípios
de segurança. É incrível como
um projeto de tal importância não mereça
a sua inclusão na Pauta do Plenário
da Câmara dos Deputados.