DARCIO
CENTODUCATO
Engenheiro Industrial Mecânico pela FEI-UBC
e Especialização em Logística
de Transportes pela FGV e Georgia Tech. Associado
ao RIMS - Risk and Insurance Management Society. Desde
2000 é Diretor de Gerenciamento de Riscos da
GPS - Logística e Gerenciamento de Riscos,
detentora da marca Pamcary.
Acidentes
com caminhões custam mais que roubo de carga
Diretor
da maior empresa de gerenciamento de risco do Brasil,
Darcio Centoducato faz um diagnóstico dos acidentes
de caminhão nas estradas brasileiras, aponta
algumas soluções e revela que é
mais fácil encontrar um motorista de automóvel
alcoolizado envolvido em acidentes nas nossas rodovias
do que um caminhoneiro.
Para os que pensam que o grande problema do transporte
rodoviário de cargas é o roubo de mercadorias,
Centoducato revela que os acidentes representam um
custo praticamente 9 vezes superior e investir em
redução de acidentes é um ótimo
negócio.
Confira
a entrevista:
1 - Quais são as principais atividades
da GPS Pamcary?
A GPS Pamcary é uma
empresa que oferece soluções integradas
em seguros, gerenciamento de riscos e informações
logísticas para o transporte de cargas, garantindo
o aumento da eficiência da cadeia logística
e elevação do nível de serviço
aos clientes, segundo os princípios da responsabilidade
sócio-ambiental.
2 - Muitos estrangeiros visitam a empresa. Que impressão
elas levam dessas visitas?
De forma geral ficam impressionados,
primeiro com o cenário de riscos no transporte
de cargas no Brasil, não apenas o de roubo,
mas principalmente quanto aos acidentes e suas enormes
conseqüências sociais. Igualmente se surpreendem
com o alto nível de especialização
e sofisticação dos processos e sistemas
tecnológicos desenvolvidos para enfrentar estes
riscos. Pelas suas expressões podemos deduzir
que ao passo que temos no Brasil um dos ambientes
de risco mais desafiadores no mundo, encontramos também
as melhores práticas para sua gestão.
3 - Em 2005 a GPS PAMCARY divulgou
um estudo sobre os acidentes de caminhão no
Brasil. Quais foram as principais conclusões?
O maior mérito do
estudo foi trazer a tona a estimativa do tamanho dos
custos dos acidentes envolvendo veículos de
carga à sociedade. Até então
apenas o roubo ganhava a exclusiva atenção
com 11.000 eventos por ano que geravam R$ 1 Bilhão
em perdas. Lançar luz sobre o fato de que ocorrem
85.000 acidentes com veículos de carga (apenas
nas rodovias federais e estaduais), que acarretam
em torno de R$ 9 Bilhões em prejuízos
e que ceifam mais de 8.000 vidas, sem dúvida,
reorientou a priorização de tratamento
de riscos nas empresas.
Além disso,
o estudo identificou os principais eventos geradores
dos acidentes mais freqüentes e de maior severidade,
que são o tombamento e a capotagem, bem como,
os fatores precursores destas ocorrências, a
saber, a velocidade incompatível com a curva
associada à fadiga do condutor. Por fim, propõe
as diretrizes estratégicas para a prevenção
destes eventos, com base em casos práticos
de sucesso junto aos seus clientes.
4 - No mesmo período deu
início a projetos com embarcadores que tinham
como meta reduzir acidentes. O caso da Unilever foi
inclusive premiado. Como foi esse trabalho e quais
iniciativas do gênero estão sendo desenvolvidas
atualmente?
É digno de nota que
o fator crítico de sucesso desse programa foi
a Unilever se determinar a enfrentar e reduzir os
acidentes em suas operações. A base
deste projeto foi um profundo e preciso diagnóstico
dos acidentes nas operações de transportes
da Unilever, fundamentado nos dados obtidos dos atendimentos
destes eventos efetuados pela GPS Pamcary no período
de 2 anos. Além da extensão dos danos,
foi possível identificar os motivos e as circunstâncias
predominantes, destacando-se a fadiga entre os motoristas.
Mas como implementar
um plano para atuar nesta causa sem comprometer a
eficiência das operações logísticas?
Para viabilizar a adoção de medidas
práticas foi constituído um comitê
de prevenção de acidentes formado por
integrantes da Unilever, GPS Pamcary e empresas de
transportes, incluindo alguns motoristas que ajudaram
a propor e validaram as medidas.
Uma das ações mais impactantes foi trabalhar
na melhoria da postura dos motoristas para o combate
da fadiga. A Unicapital (Instituição
de ensino paulista) colaborou com seus acadêmicos
da área de fisioterapia para oferecer recomendações
personalizadas para cada um dos motoristas envolvidos
na operação. Combinada com outras ações,
este programa reduziu em 65% a freqüência
dos acidentes.
O aprendizado deste processo permitiu-nos desenvolver
programas estruturados para conscientização
dos condutores (denominado atualmente de Motorista
Socialmente Responsável) e incentivo à
direção segura.
5 - Quais são os prejuízos
e danos causados por um acidente de caminhão?
Reduzir acidentes é um bom negócio?
Em 2006 A GPS Pamcary teve
o privilégio de ser convidada pelo IPEA - Instituto
de Pesquisa Econômica Aplicada, a fim de contribuir
para a mensuração dos custos dos acidentes
de trânsito no Brasil. Para o segmento do TRC
(Transporte Rodoviário de Cargas), a composição
dos custos levou em consideração as
seguintes variáveis:
Pessoas: Cuidados em saúde (pré-hospitalar,
hospitalar e pós hospitalar), perda de produção,
remoção e translado.
Veículos: Danos materiais ao veículo,
perda de carga, remoção/guincho ou pátio
e reposição.
Via/ambiente: Danos à propriedade pública
e privada Institucionais: Judiciais e atendimento.
Em adição a estes custos, existem outros
não menos importantes, tais como os ligados
à insatisfação do cliente e danos
à imagem.
6 - De que forma a GPS PAMCARY atua nesses
casos?
A prevenção
é o melhor negócio. A GPS Pamcary faz
questão de divulgar seu conhecimento por programas
de gerenciamento de riscos, inclusive comprometendo-se
com os resultados.
O fato é que já por muitos anos vínhamos
atendendo sinistros envolvendo veículos de
carga, visando com isso não só cumprir
nosso papel qual Comissária de Avarias em aquilatar
e mitigar os decorrentes prejuízos às
mercadorias transportadas, como também identificar
as causas destes acidentes buscando evitar a reincidência
de eventos análogos.
Para a prestação deste serviço,
que atinge a enorme quantidade de 4.200 ocorrências
por ano, houve a necessidade de nos estruturarmos.
São mais de 300 inspetores lotados em 32 filiais
e postos de atendimento espalhadas em todo o território
nacional. Na coleta de dados para a confecção
do relatório de atendimento são obtidas
mais de 80 informações diferentes, não
apenas sobre a extensão dos prejuízos,
mas também quanto aos fatores que causaram
e/ou contribuíram para a ocorrência.
Estas informações, produzidas em primeira
mão por funcionários treinados e experientes,
alimentam nossa base de dados diretamente do local
do acidente pelo sistema de comunicação
via satélite que equipam nossas viaturas.
Nestes milhares de eventos atendidos anualmente, constatamos
que a cada 100 acidentes atendidos, eram computadas
28 de vitimas graves e fatais! Diante destas estatísticas
preocupantes, passamos a nos perguntar: Se esta quantidade
de vítimas ocorre no espaço amostral
de nossa base de clientes, o que dizer do total de
acidentes que ocorrem no Brasil? Poderíamos
transformar os dados capturados em nossos atendimentos
em informações e finalmente gerar o
conhecimento necessário que pudesse servir
para a prevenção de acidentes, reduzindo
suas vítimas?
Assim, como uma empresa líder de seu segmento
e socialmente responsável, assumimos nosso
dever de partilhar o conhecimento adquirido com todos
os interessados no combate a este problema nacional,
apresentando um consistente diagnóstico dos
acidentes com veículos de cargas condizente
com a realidade brasileira, e mais importante ainda,
revelando quais as melhores práticas para sua
prevenção.
7 - A fadiga dos motoristas e o excesso de
velocidade estão entre os dois principais fatores
que causam acidentes. Na sua avaliação
já não passou da hora de haver um controle
da jornada semanal do motorista e tempo de direção
diário?
O controle da jornada, por
estar intimamente relacionada com a fadiga do motorista,
é uma atividade fundamental. Mas não
devemos nos esquecer da qualidade do descanso do profissional.
Isto faz com que o transporte tenha que ocorrer de
forma planejada e monitorada.
Assim, cada missão de transporte deve possuir
um "plano de viagem" ou rotograma definindo
trajetos e pontos de parada para descanso e alimentação.
Evidentemente, não basta apenas se estabelecer
um padrão de viagem segura. É necessário
o monitoramento de seu cumprimento atrelado a um sistema
de pontuação dos motoristas, recompensando-os
financeiramente. Sem dúvida, ao passo que a
fiscalização tem o seu papel vital,
a única forma de auditar o modo de se dirigir
um caminhão em 100% do percurso, é pelo
emprego maciço da tecnologia embarcada. Hoje
isto é possível pela aplicação
da telemetria à prevenção de
acidentes.
8 - Quais medidas simples o Governo
Federal poderia tomar para reduzir acidentes com veículos
de carga?
Quanto aos limites de tempo
de direção, assunto amplamente discutido,
é importante que a lei valha para todos: Empresas,
agregados e motoristas autônomos, a fim de se
evitar concorrência desleal.
No entanto, uma ação governamental para
criar condições em reduzir a fadiga
do motorista é a Normatização
do Sistema de Remuneração do Motorista
Autônomo objetivando a Segurança e sua
Inserção Social. Isso porque para receber
o valor da carta-frete o caminhoneiro autônomo
fica obrigado a efetuar paradas em postos de combustíveis
que não são de sua escolha e não
obedecem questões de segurança, descanso
e bem-estar do motorista.
As paradas desnecessárias provocam aumento
de sua jornada de trabalho e/ou excessos de velocidade
para o cumprimento dos prazos contratuais.
9 - Que cuidados as empresas e caminhoneiros
devem tomar para reduzir acidentes, sem precisar realizar
grandes investimentos com tecnologia?
São as empresas que devem criar condições
para o comportamento seguro dos profissionais que
carregam suas cargas. Assim com na iniciativa pública,
devem tomar medidas como a educação,
padronização, fiscalização
de suas viagens e remuneração adequada
que incentive a direção segura. Criar
um sistema de pontuação baseado no cumprimento
do plano de viagem e que sirva de parâmetro
para o pagamento de prêmios, certamente é
a forma mais eficaz de se obter bons resultados.
10 - Acaba de ser publicada lei que proíbe
motorista de dirigir após consumir álcool.
Que percentual os senhores apuraram de caminhoneiros
que dirigem sob efeito do álcool? E de drogas
e rebites?
As informações
obtidas por nossos profissionais que atendem milhares
de acidentes com veículos de carga, revelam
um fato importante: Motoristas de caminhão
são muito mais conscientes do que os de passeio.
Apenas 1% dos acidentes atendidos revelaram indícios
de embriaguez. Nos casos de colisões com veículos
de passeio, é muito mais provável que
o motorista alcoolizado seja o do veículo leve.
11 - Num mundo globalizado as matrizes
das grandes empresas estão mais preocupadas
com a redução dos acidentes. Os senhores
tem tido muitos casos em que a determinação
de reduzir acidentes vem de fora?
Estamos presenciando um processo
evolutivo no nível de consciência para
este tema. No passado, falar em Gerenciamento de Risco
no Transporte Rodoviário de Carga imediatamente
remeteria a inibição de roubos. Hoje
em nossos programas de Gerenciamento de Riscos o embarcador
já está entendendo que a imagem de sua
empresa está em jogo no caso dos acidentes.
Embora alguns projetos para prevenção
de acidentes tenham demanda de fora, o mercado nacional
já se despertou para esta necessidade.
12 - Quem pode ser considerado "motorista
profissional socialmente responsável"
e que trabalho a GPS Pamcary está realizando
para que tenhamos mais profissionais com esse perfil?
O Motorista Socialmente Responsável
é aquele que pratica a direção
segura, mantém-se saudável, procura
atualizar-se fazendo cursos específicos, além
de atuar como guardião da natureza e no combate
à exploração de crianças
e adolescentes, nas rodovias.
Este programa está baseado em três importantes
pilares: Motorista Seguro, que pratica direção
segura, cuida da sua saúde, não usa
drogas, não mata e não morre; Motorista
Competente, que procura sempre atualizar-se, participando
de cursos como de rastreadores, transporte de produtos
perigosos e poluentes, entre outros; e Motorista Protetor,
que tem o papel de guardião da natureza e do
meio ambiente, atuando também como agente de
proteção da criança e do adolescente,
ou seja, só não participa da exploração
infantil nas estradas como também denuncia
esta prática.
O Foco do programa foco é a conscientização.
Trata-se de um processo coletivo, com o objetivo de
formar uma massa de motoristas socialmente responsáveis
para que estes, por sua vez, disseminem esta prática.
Para isso estamos utilizando alguns meios de comunicação
com o motorista, como cartilhas, banners, apresentações
em eventos para motoristas, E-learning, entre outros.
13 - Como a maioria dos caminhoneiros são autônomos,
como é possível reduzir acidentes com
pessoas teoricamente independentes?
O frete tem um dono. Este
deve ser o fiscalizador e o responsável por
garantir um padrão de viagem segura. Concluímos
que a chave da mitigação e controle
do risco de acidentes basicamente depende de duas
ações focadas no motorista e na viagem
(estrada). Diante disso, esse dono do frete, seja
ele o embarcador ou a empresa de transporte deve estabelecer
regras mínimas de segurança para a operação
de transporte de suas cargas, como definir prazos
adequados de entregas e rotogramas previamente definidos
para cada rota.
Novamente, o bolso é o órgão
mais sensível do corpo humano. O sistema de
remuneração baseado na obediência
ao plano de viagem, respeitando-se os limites de velocidade,
tempo de direção e descanso, é
ação mais eficaz, independentemente
do vínculo entre o motorista e a transportadora.