CHEQUER
JABUR CHEQUER
Coordenador Geral do IPR - Instituto de Pesquisas
Rodoviárias
Instituto
de Pesquisas Rodoviárias - Há 50 anos
contribuindo para que os brasileiros viajem com mais
segurança e transportem com menor custo.
As vésperas de completar 50 anos, o IPR -
Insituto de Pesquisas Rodoviária realiza um
trabalho extraordinário, que poucos brasileiros
conhecem.
O IPR desenvolve estudos e pesquisa, que geram novas
tecnologias e produtos, os quais contribuem para a
redução do custo dos ransportes e aumento
da segurança para quem circula por nossas rodovias.
O IPR é reconhecido nacionalmente na capacitação
de profissionais da engenharia rodoviária,
mas também respeitado internacionalmente, pela
sua história de competência e inovações.
A frente do IPR, o Dr. Jabur Chequer, orgulhoso do
Instituto, sua história e profissionais. Sua
liderança positiva e democrática, mantém
o espírito de luta dos seus membros, que enfrentam
as dificuldades tradicionais do setor público
no Brasil, particularmente, das entidades dedicadas
a pesquisa.
Na entrevista concedida pelo Dr. Jabur Chequer você
poderá conhecer um pouco do IPR e seu trabalho.
1 - Qual a importância
do IPR para a história da engenharia rodoviária
brasileira?
Chequer: Eu diria que a importância histórica
do Instituto de Pesquisas Rodoviárias é
essencial. Se, por um lado, não é um
órgão executor, no sentido estrito da
palavra, ou seja, se não se ocupa diretamente
da construção, manutenção
ou operação das rodovias federais, por
outro lado, o IPR, ao longo de seus 50 anos de existência,
criou, regulamentou e sancionou todo o arcabouço
técnico-científico da engenharia rodoviária
no Brasil. Por assim dizer, o IPR funciona como a
memória e o cérebro da rodovia no Brasil,
tendo também sido responsável pela formação
da mentalidade rodoviária no país. Por
ter exercido esse papel de regulador e formador, por
não ter operado diretamente nas frentes de
trabalho, o nome do IPR não entrou no imaginário
popular tão facilmente como, por exemplo, o
nome do DNER, departamento ao qual pertenceu até
2002 e que, até hoje, é uma referência
quando se fala de rodovia no Brasil, ou o do DNIT,
ao qual pertence atualmente. O IPR é mais conhecido
no meio acadêmico e tecnológico, o que
em nada diminui a sua importância histórica,
mas serve também para mostrar que, muitas vezes,
é nos bastidores que se produz trabalho de
peso.
2 - Quais as maiores contribuições
do IPR ao longo desses 50 anos?
Chequer: Essa resposta pode ser dividida em três
partes. São precisamente as três áreas
básicas em que atua o IPR: A Pesquisa, a Normalização
e a Capacitação Tecnológica.
A Pesquisa é, por assim dizer, o início
do processo. Ela pode ser motivada por uma importação
e adaptação de uma tecnologia estrangeira;
ou pode ser desenvolvida por pressões ou necessidades
internas específicas ao Brasil, sendo, neste
caso, inovadora. Dentre as centenas de pesquisas realizadas,
citemos algumas mais recentes e fundamentais: Métodos
de Dimensionamento de Pavimentos, Asfaltos Modificados
por Polímeros, Recapeamento de Pavimentos Flexíveis
com Concreto do tipo Whitetopping, Desempenho do Produto
Multigrade, Avaliação Estrutural de
Pavimentos com FWD (Falling Weight Deflectometer),
Determinação de Custos de Acidentes
Rodoviários, Avaliação de Desempenho
de Pavimentos Típicos Brasileiros, Sistema
de Gerência de Obras-de-Arte Especiais, Plano
de Contingência para Sinistros Envolvendo o
Transporte Rodoviário de Produtos Perigosos
e Utilização de Escória de Aciaria
como Base e Sub-base de Pavimentos (esta última,
ainda em andamento). Já a Normalização
consiste na consolidação e aprovação
em texto dos resultados de uma pesquisa ou de qualquer
outro procedimento técnico que tenha sido padronizado,
tornando-os acessíveis ao público interessado.
Dois tipos de documentos são os mais produzidos:
a Norma Técnica, propriamente dita, que deve
ser respeitada em todos os seus preceitos, e o Manual
Técnico, que tem um caráter mais orientador
e, por vezes, didático. O acervo atual do IPR
compreende 389 Normas Técnicas e 730 publicações
diversas (Manuais, Instruções, Glossários,
Diretrizes, etc). Toda essa documentação
sofre periodicamente um longo processo de revisão
e atualização, para que não fique
ultrapassada e obsoleta em função das
constantes inovações tecnológicas.
E mais: parte considerável dela (incluindo
todas as Normas) está disponível no
site do DNIT (link IPR), onde pode ser consultada
e reproduzida gratuitamente. Por último, vem
a Capacitação Tecnológica ou
treinamento. Em outros termos, o IPR é também
uma escola, especializada na formação
de técnicos rodoviários. Os treinamentos
do IPR são sempre disputados por ser a garantia
de uma instrução específica e
pautada na pesquisa e na normalização.
Complementando essas três atividades básicas,
o IPR também realiza auditorias e inspeções
técnicas e dá suporte técnico
a outros setores do DNIT, quando solicitado. Com isso
fecha-se o ciclo de atuação do IPR -
o chamado Ciclo de Desenvolvimento Tecnológico
- e percebe-se a multiplicidade de sua contribuição
para a engenharia rodoviária nacional.
3 - O que o senhor destacaria
na pesquisa sobre o impacto do custo dos acidentes
nas rodovias brasileiras?
Chequer:
Eu destacaria, acima de tudo, o ineditismo, a abrangência
e a complexidade da pesquisa. Com ela preencheu-se
uma lacuna há muito existente na análise
econômica de projetos rodoviários: a
determinação do custo de todo e qualquer
acidente, por tipo e por gravidade, em âmbito
nacional, e da taxa de benefício/custo da implementação
de medidas preventivas ou corretivas nas rodovias.
A metodologia desenvolvida pelo IPR considerou os
seguintes parâmetros: danos materiais aos veículos;
danos ao patrimônio de terceiros; custos médico-hospitalares
(ambulância, hospitalização, exames
de médicos e legistas, remédios e equipamentos
de reabilitação); perdas de produção
e consumo; perda de rendimentos futuros; despesas
de funerais; custos judiciários; custos por
retenção de tráfego, etc, e outros
parâmetros bem mais subjetivos, como a dor e
o sofrimento frente à perda da vida humana.
Essa pesquisa mostra também que o IPR não
se ocupa apenas de pavimentação, projeto
geométrico, ou seja, do núcleo da engenharia
rodoviária, mas vai além dessas questões
básicas.
4 - Quais são, enfim,
as principais medidas que deveriam ser tomadas para
reduzir os acidentes em nossas rodovias?
Chequer: Afora a manutenção inadequada
dos pavimentos, cujos defeitos podem gerar acidentes
graves, e a capacidade insuficiente de certas rodovias
(pista simples, falta de acostamento, etc), que também
pode facilitar acidentes, o grande vilão nessa
história é, por um lado, a sinalização
deficiente, e, por outro, a imprudência do motorista
e o desrespeito às normas de segurança.
Para mim, este é o principal gargalo: o motorista
e a sua educação de trânsito deficiente.
De nada valeria termos as melhores estradas em termos
de traçado e manutenção e a melhor
sinalização do mundo, se o motorista
ignorasse as advertências e os limites de velocidade
pré-estabelecidos. A questão, no entanto,
não é simples, porque envolve ainda
o estado de conservação da frota, a
crescente densidade de tráfego pesado nas rodovias,
o excesso de horas de trabalho, o atendimento médico
deficiente, etc. Uma solução global
deve passar pela melhoria da infra-estrutura, pela
educação permanente do usuário,
pelo controle severo, pelo policiamento adequado e
pela punição exemplar dos infratores,
afora outras medidas técnico-administrativas.
5 - Muitos usuários
acham que o limite de velocidade é criado por
um engenheiro mal-humorado. Quais são, em linguagem
leiga, os critérios para estabelecer o limite
num trecho de rodovia e a diferenciação
entre limite para veículos leves e pesados?
Chequer:
O limite de velocidade é estabelecido para
controlar os chamados "motoristas de risco",
que correspondem a cerca de 15% do total, e certamente
não se deve ao possível mau humor dos
engenheiros de tráfego. O objetivo do controle
da velocidade, com limites fixados tecnicamente, é
naturalmente o de reduzir a quantidade e a gravidade
dos acidentes. A prática consiste em coletar
amostras de velocidade em trechos homogêneos
da malha, segundo características de projeto,
volume, composição do tráfego
e nível de serviço, determinando o limite
da velocidade de operação compatível
com tais características. Também se
coletam amostras de velocidade nos chamados locais
críticos, que apresentam situações
particulares de operação e de segurança
de trânsito, tais como: aproximação
de acessos e interseções, acostamentos
e pontes estreitas, curvas acentuadas, insuficiências
de superlargura e superelevação, distâncias
de visibilidade restritas em planta e perfil, ou presença
de obstáculos laterais, definindo-se um limite
pontual para cada um desses locais. Essa avaliação
deve ser contínua, e os limites determinados
devem ser integrados às campanhas educativas
e a uma correta gerência de tráfego.
6 - O IPR tem tido o apoio
necessário para desenvolver seus trabalhos
ao longo de sua existência?
Chequer: Por um lado, sim. O IPR é reconhecido
- mas talvez ainda nem tanto quanto lhe convém
- como elemento-chave na pesquisa, na normalização
e na capacitação tecnológica,
dentro e fora do Brasil. Tem um parque laboratorial
importante, uma Pista Experimental Circular, uma das
três únicas no mundo, instalações
condizentes e verbas específicas para a consecução
de seus objetivos, mas padece, como boa parte do Serviço
Público, de deficiências internas para
suprir o custeio e a manutenção de sua
própria estrutura em termos de um funcionamento
ótimo. Muitas das grandes realizações
do IPR e boa parte das suas realizações
cotidianas são realizadas por conta do empenho
de seu corpo técnico, muitas vezes às
custas de sacrifícios e investimentos pessoais.
7
- Os governos não acabam desperdiçando
recursos com convênios ou estudos realizados
com outras entidades, quando muitas vezes o IPR já
realizou o mesmo trabalho, com mais profundidade e
consistência?
Chequer: Isso pode acontecer, sobretudo quando há
um esfacelamento da Administração Pública
e quando as partes não se comunicam nem se
reconhecem. Um exemplo disso pode ocorrer entre a
Administração Direta e as Agências
Reguladoras, ambas lidando com o patrimônio
público. A falta de comunicação
entre DNIT e agências pode ocasionar, muitas
vezes, a desnecessária duplicidade de ação
em áreas já previamente normalizadas
pelo IPR. Na verdade, o IPR é o único
órgão federal que tem a palavra final
na pesquisa e normalização rodoviárias.
Se não as realiza ele mesmo, deve ao menos
ter conhecimento delas, examiná-las e aprová-las,
antes que possam ser usadas pela comunidade rodoviária.
Esse papel do IPR deve ser inequivocamente respeitado.
Com isso se evitariam desmandos e gastos supérfluos.
8 - Como seria o mundo ideal,
em termos de recursos e apoio, para o IPR?
Chequer: Basicamente, precisamos de melhores condições
e ambientes de trabalho. O mundo ideal para o IPR
seria o da boa comunicação (computadores
e telefones eficientes, INTERNET rápida e generalizada,
demais aparelhos funcionando, e manutenção
periódica), das boas instalações
(conforto, segurança, privacidade) e dos bons
suprimentos (material de escritório, de consumo,
etc). Precisamos também operacionalizar nossas
conexões com o mundo exterior (institutos de
pesquisa no Exterior) e ter meios de incrementar a
difusão de nossos produtos por todo o Brasil.
9 - Qual a importância
de usar os "Sistemas Inteligentes de Transporte"
para reduzir acidentes e melhorar o tráfego
nas rodovias?
Chequer: Os Sistemas Inteligentes de Transportes,
ou ITS, prosperam, sobretudo, nos meios urbanos, onde
a congestão de tráfego é mais
freqüente e intensa. Começam também
a despontar ao longo das principais rodovias, mas,
por exigirem um investimento inicial substancioso,
são por enquanto quase um privilégio
das concedidas. Ainda que essenciais no controle e
no monitoramento do trânsito pesado, os ITS
não podem ser considerados uma panacéia.
Sem a resposta adequada do usuário, os ITS
não logram cumprir adequadamente os seus objetivos.
Embora também forneçam informações
e orientações valiosas aos usuários
e aos operadores dos sistemas, facilitando em todos
os sentidos o fluxo de tráfego, os ITS são
na maioria das vezes meios coercitivos, ou seja, de
controle das ações e decisões
tomadas no trânsito. Por isso, devem ser usados
com critério, sempre contando com o feedback
do usuário e a interferência precisa
do operador. Em outras palavras, o elemento humano
permanece o centro nevrálgico dos ITS.
10 - O que o IPR oferece que
muitos brasileiros desconhecem e poderiam utilizar?
Chequer: O IPR tem uma atuação centrada
no desenvolvimento tecnológico. Portanto, a
sua produção, por assim dizer, não
está diretamente acessível ao grande
público, mas sim aos meios acadêmicos,
às firmas de engenharia, a outros órgãos
técnicos do governo e mesmo a entidades estrangeiras.
Temos uma Biblioteca especializada em transporte rodoviário,
única no país, aberta ao público
interessado. Costumamos chamar de "comunidade
rodoviária" àquele grupo de pessoas
diretamente interessado nas atividades do IPR. Não
visamos ao povo em geral, embora, em última
instância, sendo o nosso objetivo desenvolver
a tecnologia rodoviária, não deixamos
também de atender a diversos anseios populares
quanto a um transporte rodoviário mais seguro,
econômico e eficiente. Convém lembrar
que, se há uma crise no setor rodoviário
no país, tal como atesta o estado precário
de algumas rodovias, não é porque nos
falta uma engenharia moderna e inteligente. Ela existe,
e o seu patrimônio técnico-literário
está documentado e preservado pelo Instituto
de Pesquisas Rodoviárias.