
Trânsito:
epidemia previsível
A escalada da violência nas ruas e rodovias
brasileiras é uma verdadeira tragédia
que não tem recebido a merecida atenção
dos responsáveis pelo trânsito em todos
os níveis e nem mesmo dos meios de comunicação.
Recentemente, a Organização dos Estados
Iberoamericanos divulgou seu Mapa da Violência,
com dados de 2004. Os 48.374 assassinatos ganharam
as primeiras páginas dos jornais, mas foram
exceções os veículos que ressaltaram
que, naquele mesmo ano, 35.574 pessoas morreram em
acidentes nos transportes, a imensa maioria vítimas
fatais do trânsito no Brasil. Como afirma o
ministro da Saúde, José Gomes Temporão,
o número de mortes no trânsito configura
uma verdadeira epidemia.
Na análise do Mapa da Violência, a violência
no trânsito é ainda mais alarmante que
o número de homicídios, em que houve
uma redução de 2003 para 2004, relacionada,
pelo estudo da entidade, às campanhas de desarmamento
e outras ações. O número de vítimas
dos acidentes nos transportes, entretanto, vem aumentando
e voltou ao patamar de 1997, antes da edição
do novo Código de Trânsito Brasileiro,
que teve um impacto - infelizmente pouco duradouro
- na redução dos índices macabros
de mortos e feridos. O Mapa da Violência da
Organização dos Estados Iberoamericanos
aponta a retomada da escalada de mortes - e, também
no trânsito, a juventude é a principal
vítima, com uma caractéristica reveladora:
o número de óbitos de jovens aumenta
1321% nos fins de semana.
A violência nas vias e rodovias é um
problema mundial. A Organização das
Nações Unidas calcula que 1,2 milhão
de pessoas morrem por ano de acidentes no trânsito
- 85% em países de baixa e média renda
no qual o Brasil está incluído. O número
de feridos pode chegar a 50 milhões por ano.
O custo dos acidentes para esses países chega
a US$ 100 bilhões de dólares anuais.
Para aumentar a percepção sobre o impacto
da violência no trânsito, foi realizada,
entre os dias 23 e 27 de abril, a 1ª Semana Global
das Nações Unidas sobre Segurança
em Vias e Rodovias, com o objetivo de incentivar o
debate sobre ações para reduzir o número
de vítimas e promover a mobilização
da opinião pública sobre o tema. No
Brasil, vários ministérios - Cidades,
Saúde, Transporte, Educação -
trabalharam na organização de eventos
que tiveram a participação de entidades
como a SBOT (Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia),
a ABRAMET (Associação Brasileira de
Medicina de Tráfego) a ANTP (Associação
Nacional de Transporte Público) e o IST (Instituto
de Segurança de Trânsito).
Todo esse esforço precisa envolver também
o Legislativo e o Judiciário, os veículos
de comunicação e também as empresas
privadas ligadas ao transporte (indústria automobilística,
setor de petróleo, concessionárias de
rodovias) para que tenhamos uma mobilização
semelhante a que existe sobre segurança pública.
Na Câmara dos Deputados, realizarou-se uma sessão
solene em homenagem à iniciativa da ONU e em
memória às vítimas do trânsito.
Desde o acidente com o aeronave da Gol, onde perderam-se
tragicamente 154 vidas, discute-se os problemas do
tráfego áereo, com a instalação
de duas CPIs no Congresso. Apenas no feriado da Páscoa
e apenas nas estradas federais, morreram 79 brasileiros.
No carnaval, foram 145 vítimas - também
apenas nas estradas federais. Para não esquecer:
os acidentes, ainda de acordo com o Mapa da Violência
da OEI, mataram mais de 160 mil pessoas em cinco anos,
de 2000 a 2004 - o equivalente a mais de 1.000 acidentes
aéreos como o ocorrido com a aeronave da Gol.
Na verdade, sequer deveríamos tratar como
acidentes as ocorrências no trânsito já
que são totalmente previsíveis. Os jornais
poderiam guardar uma página para as mortes
nas vias e rodovias após cada carnaval e cada
feriado de Páscoa com a certeza de que não
faltaria assunto. Se forem previsíveis, os
acidentes de trânsito também podem ser
prevenidos. Mas precisamos de uma atenção
geral e permanente da sociedade para que esse alarmante
número de mortos não se transforme em
uma estatística banal e ocorram iniciativas
concretas para a redução do número
de acidentes.
Hugo Leal Melo da Silva - Deputado Federal
RJ, PSC.
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