A
roleta mortal das ruas e das estradas
Uma das normas básicas de direção
defensiva reza que o motorista deve fazer de tudo para
tornar-se visível aos demais motoristas. Ele
precisa ser visto para ser evitado. Ele precisa ser
evitado para impedir a ocupação simultânea
do mesmo espaço por dois veículos. Agindo-se
assim, reduz-se a possibilidade de acidentes.
Com base nisso, muitas empresas de transporte no
Brasil recomendam a seus motoristas que, em viagem,
trafeguem com os faróis acesos, mesmo durante
o dia. Os faróis, embora tenham sido criados
originalmente para uso à noite, são
instrumentos poderosos de visibilização
de um veículo. Não se usam os faróis
apenas para enxergar ruas e estradas, mas para que
os veículos sejam vistos quando em deslocamento
(veículos parados devem usar apenas lanternas).
Por isso, é comum vermos nas estradas brasileiras,
hoje em dia, alguns veículos, principalmente
ônibus e caminhões - embora já
seja comum essa prática também nos automóveis
-, com os faróis acesos à luz clara
do dia. Bobos? Distraídos? Perdulários?
Nenhuma dessas hipóteses. Eles estão
sendo apenas cautelosos.
Pelas normas brasileiras de trânsito, que procuram
acompanhar as de países mais desenvolvidos,
é obrigatório o uso dos faróis
após o pôr-do-sol. Qual é o objetivo
disso? Aumentar a visibilidade dos veículos
em deslocamento e, à medida que escurece, permitir
a visão do caminho à frente.
Então, aqui no Brasil agora temos um paradoxo:
veículos com faróis acesos durante o
dia e completamente apagados, ou usando apenas lanternas,
à noite. A prática começou com
os taxistas, verdadeiros corujas dessa roleta noturna
perigosa. Um deles me disse que, assim, economizava
bateria. Outro me garantiu que não precisava
de faróis para enxergar as ruas iluminadas.
Quer dizer: eles criaram uma norma que não
leva em consideração o objetivo do legislador,
que é de fazê-los também visíveis.para
pedestres e para os demais motoristas. O ver-e-ser-visto
não chegou à compreensão desses
motoristas. Tanto que agora também dirigem
assim nas vias expressas iluminadas, em que se admitem
velocidades elevadas.
Infelizmente, o legislador estabeleceu que isso não
é falta grave. Falta grave é passar
a 46km/hora por um pardal que determina velocidade
máxima de 40km/hora.
Como essa infração não é
reprimida - assisti apenas uma vez na vida a um PM
em frente ao Aeroporto de Congonhas deixar a calçada
e cruzar a rua para advertir um motorista que se aproximava
com os faróis apagados -, alastra-se como capim
colonião nas encostas encharcadas pelas chuvas.
Os agentes da repressão parecem não
ter se dado conta de quanto é perigoso esse
comportamento. Estou convencido de que na raiz dos
nossos altíssimos índices de atropelamentos
esteja essa mania de dirigir à noite apenas
com as lanternas acesas. Talvez isso explique por
que velhos e crianças sejam as vítimas
preferenciais dos atropelamentos, eles por deficiência
visual decorrente da idade, elas por afoiteza natural
da idade. Outro indício poderoso das causas
desse massacre é que a maior parte dos atropelamentos
ocorre na transição entre a tarde e
a noite, no lusco-fusco, justamente quando há
perda considerável da visibilidade pelo esmaecer
da luz.
Então, se o diagnóstico está
correto, temos três tarefas pela frente: convencer
os legisladores a endurecer as normas que punem essa
infração; determinar aos agentes da
repressão, em todos os níveis, que sejam
implacáveis com essa displicência criminosa:
e, finalmente, ensinar aos motoristas, principalmente
quando formos conceder carteiras de habilitação,
a importância da vida humana e os riscos implícitos
nessa roleta da escuridão.
Romildo Guerrante, jornalista há mais de
30 anos. Graduado em Comunicação Social
pela Universidade Federal Fluminense em 1974.
<<
Voltar