Fernando
Luiz Nogueira Pedrosa
Violência
no trânsito omissão e cumplicidade
Os números dramáticos das ocorrências
trágicas nas rodovias brasileiras durante as
festas do fim de ano de 2007, embora tenham surpreendido
muita gente e sido pauta de reportagens de todos os
veículos de comunicação no Brasil,
com certeza, não surpreenderam os especialistas.
Essa tragédia vem sendo anunciada regularmente,
pela omissão das autoridades no processo educativo
e nos processos de fiscalização e de repressão.
Os que trabalham com o tema, especialmente com suas
conseqüências negativas, ficam apenas na
triste expectativa de saber em quanto foi o aumento
do índice de mortos e feridos.
Não há novidades na identificação
dos fatores de tanta violência assim como também
não há novidade para a solução
do problema.
Outros paises que conviveram com o mesmo problema
e que decidiram, em saudável cumplicidade com
a sociedade, enfrentar o problema adotaram a velha
fórmula que combina de forma equilibrada normas
claras em primeiro lugar, educação permanente
em segundo lugar e finalmente, fiscalização
e punição célere e justa para
os infratores. Assim foi nos EUA, na Inglaterra, no
Canadá, no Japão e recentemente em Portugal
e Espanha que, com índices muito acima da média
da comunidade européia, decidiram seguir o
exemplo dos paises vizinhos.
LEGISLAÇÃO
- Normas já temos. O Novo Código de
Trânsito, instituído em 1997, é
uma lei moderna e que até serviu de base para
a reforma do Código das Estradas de Portugal.
O que ainda falta, seguramente, são as duas
outras pernas do tripé acima mencionado.
EDUCAÇÃO
- Depois de mais de 10 anos da promulgação
do CTB o artigo 74 que implanta a educação
para o trânsito em todos os níveis de
ensino ainda não foi regulamentado. E de quem
é a omissão? Das autoridades. Além
disso, os recursos especialmente destinados para as
campanhas de conscientização (FUNSET
e DPVAT) que também são formas de educar
são rotineiramente contingenciados. Quem são
os responsáveis? As autoridades. E por fim,
no quesito educação, não podemos
deixar de apontar a própria sociedade que,
com seus pequenos maus exemplos (como parar em fila
dupla "rapidinho" na porta da escola), acaba
transmitindo às gerações mais
jovens o conceito de que as regras e leis não
são para todos.
FISCALIZAÇÃO
E PUNIÇÃO - De todas, a mais
atrofiada das pernas do tripé. De nada adianta
leis modernas e severas se não há fiscalização.
Sem fiscalização não há
punição e a impunidade leva ao descrédito
total de todo o sistema.
Por isso, apesar das boas intenções
do Ministério da Justiça, as "medidas
draconianas" anunciadas para enfrentar esse mal
(que não é novo e sim absolutamente
recorrente) serão também ineficazes
se as autoridades não fizerem, antes, o dever
de casa direitinho. De que adianta aumentar o valor
da multa se as infrações não
são autuadas?
Aliás, o papel da imprensa na discussão
desse importante tema que está, literalmente,
dizimando uma expressiva parcela da população
brasileira todos os anos (especialmente jovens) é
fundamental. È preciso ir além do "factual"
e analisar as causas e conseqüências. Leio
seguidamente em muitos jornais algumas afirmações,
muitas sem qualquer fundamento e outras até
levianas, que de tanto se repetirem acabam transformando-se
em verdades absolutas. Vamos a elas:
INDUSTRIA DE MULTAS.
O volume de multas é grande porque a frota
brasileira é também muito grande. Mais
de 40 milhões de veículos em circulação.
Levantamento feito na base de dados do sistema de
trânsito brasileiro revela que apenas 7% dos
condutores são infratores contumazes (mais
de 5 infrações por ano). Isto é;
93% dos motoristas brasileiros andam na linha e 70%
nem recebem infração. Ainda avaliando
a mesma base de dados vemos que dos mais de 2 milhões
de multas contabilizadas, 30% (cerca de 600 mil) foram
por excesso de velocidade.
O QUE ESTÁ MATANDO SÃO
AS VIAS DE CIRCULAÇÃO, AS CONDIÇÕES
DO CLIMA E AS FALHAS MECÃNICAS. Falso.
Por mais paradoxal que possa parecer os acidentes
com vitimas acontecem de dia, com tempo bom e em vias
de circulação de boa qualidade. E a
explicação é lógica. Quanto
mais deteriorado estiver o asfalto, com buracos e
desníveis, menor será a velocidade imprimida.
O que teremos nessas condições são
muitos acidentes com danos materiais (quebra de suspensão,
estouro de pneu, etc.), mas sem danos físicos
aos seus ocupantes.
CINTO DE SEGURANÇA PODE
SER FATAL NO CASO DE FOGO OU SUBMERSÃO.
Outra premissa absolutamente equivocada. O cinto de
segurança é reconhecido mundialmente
como o mais importante item de proteção
veicular individual. Mais do que o airbag. Ele mantém
condutor e passageiro presos ao assento evitando o
choque do corpo no interior do veículo. Nos
casos de fogo e submersão, pra que os ocupantes
consigam sair do veículo, antes de mais nada
eles precisam estar conscientes. Sem o cinto, sofreriam
os traumas decorrentes da colisão e a consciência,
portanto, poderia estar seriamente comprometida. Lembrando
que o processo de desatar o cinto é muito mais
simples do que abrir uma porta que pode estar travada
e até danificada pelo impacto.
Poderia me alongar indefinidamente aqui derrubando,
um a um, os mitos e as falsas verdades que acabam
por contribuir para a manutenção cruel
da violência sobre rodas. Mas são tantos
os mitos, que o espaço generoso que me foi
oferecido para esse artigo não seria suficiente.
Sigo, portanto, na certeza de que a solução
é factível. Para alcançá-la
dependemos apenas de vontade, iniciativa e cobrança.
Fernando Pedrosa
Jornalista e Publicitário. Especialista
em Prevenção no Trânsito.
Ex- Coordenador do Programa PARE do Ministério
dos Transportes
Membro da Câmara Temática de Educação
e Cidadania do CONTRAN 2002/2006
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