Segurança no Trânsito

Fernando Luiz Nogueira Pedrosa


Somente com a educação não vamos alcançar a segurança no trânsito

Com este título em sua matéria de capa a Revista STATUS REPORT, uma das mais importantes publicações especializadas do setor automotivo nos EUA, levanta uma tese polêmica e que tem sido aqui no Brasil tema recorrente de debates apaixonados entre especialistas e autoridades:
A EDUCAÇÃO, POR SI SÓ, RESOLVE A GRAVE QUESTÃO DOS ACIDENTES DE TRÂNSITO?

Segundo o artigo da revista, todos os que acreditam que motoristas bem orientados e conscientes dos seus deveres são “à prova de acidentes” estão equivocados. Para sustentar essa afirmação, os autores apresentam algumas experiências internacionais fracassadas que, por anos a fio, carregaram na ênfase da capacitação dos motoristas, tanto pelos cursos formais quanto por meio de campanhas informativas. Nesses países, prevenir acidentes por meio da educação foi um enfoque exclusivo durante os anos 60. Antes mesmo do surgimento dos cintos de segurança, dos air-bags e das carrocerias deformáveis, placas nas estradas e nas vias públicas já exibiam a famosa frase: "DIRIJA COM CUIDADO".

Com o tempo, em função dos índices sempre crescentes dos acidentes de trânsito, a situação começou a mudar. Em 1966, o Congresso dos Estados Unidos aprovou uma lei atribuindo ao governo federal a responsabilidade da segurança no trânsito em todo o território americano. Desde então, de uma maneira uniforme, o enfoque foi ampliado trabalhando-se na prevenção de acidentes não só com ações no campo da informação e do comportamento mas também com o desenvolvimento de pesquisas e produtos que ampliaram em muito o nível de segurança dos veículos e das vias de circulação. Através de uma abordagem científica foram introduzidas exigências na indústria automotiva que comprovadamente contribuíram para o salvamento de muitas vidas em todo o mundo.

EDUCAÇÃO, ÀS VEZES, PODE SER UM PERIGO
Estranha essa afirmação? Nem sempre. Vejamos os casos de países que introduziram no ensino de segundo grau aulas de trânsito como um meio facilitador para a obtenção da licença para dirigir. O Canadá e a Austrália, por exemplo, viram aumentar assustadoramente a ocorrência de acidentes envolvendo jovens condutores com pouco tempo de habilitação. O motivo era evidente: Precocemente estimulados a assumirem a direção de veículos, porque encontraram na escola formas facilitadoras de obterem a habilitação, esses jovens inexperientes subestimaram os riscos sempre presentes - mas quase nunca visíveis – que envolvem a prática.

Situação semelhante também vivem alguns condutores alemães que se inscrevem em cursos de direção em situações de risco (como desviar de um obstáculo inesperado, como dominar o veículo numa aquaplanagem, etc.) efetuados em pistas de corrida e semelhantes ao treinamento que é exigido de pilotos profissionais. Esses motoristas, na maioria já contando com alguns anos de experiência e confiantes no novo ensinamento adquirido, acabam se envolvendo com mais freqüência em acidentes decorrentes do excesso de velocidade e das ultrapassagens perigosas.

"A crença de que o conhecimento por si só mudará o comportamento de condutores e pedestres demonstra uma visão absolutamente ingênua", afirma a revista.

OS LIMITES DAS CAMPANHAS
Na matéria da STATUS REPORT há uma crítica indireta aos vultosos investimentos do governo americano em campanhas maciças de publicidade com mensagens adocicadas mas sem conteúdo como, por exemplo a campanha DRIVE NICE (Dirija amavelmente). Segundo a revista, apesar de simpáticas, essas mensagens carecem de conteúdo e não resultam necessariamente em uma condução mais segura. Isto porque a grande maioria dos condutores não admite suas falhas. Os “maus condutores” são sempre os outros. Segundo os especialistas, essas mensagens só contribuem para a redução de acidentes quando acompanhadas por um expressivo controle do cumprimento das leis.

As campanhas massivas de conscientização e de mobilização social são instrumentos importantes mas não suficientes para melhorar a violência do trânsito. Na verdade, as campanhas, se feitas de forma oportuna e objetiva, preparam os espíritos para a mudança de conduta individual e social que virá de fato com o controle efetivo. Um bom exemplo também vem da Austrália. Segundo o Dr. Peter Vulcan, da Universidade de Monsah, “é possível começar um processo de mudança de comportamento no trânsito através do acatamento voluntário de mensagens disseminadas. Mas para garantir o respeito da maioria é necessária a aplicação da lei que também deve ser abordada e reafirmada nas campanhas”.

Em nosso país há uma intensa polêmica sobre a honestidade e a eficácia dos sistemas eletrônicos de controle de infrações. Mas de nossa parte, que estamos há anos trabalhando com a questão da acidentalidade e conhecemos de perto o drama e a dor dessa tragédia, estamos convencidos que, com um mínimo de critério, todo e qualquer método utilizado na fiscalização – seja um radar, um pardal, uma lombada eletrônica ou a simples presença do guarda com o seu talão de multas - traz resultados visíveis.

Quando um infrator em potencial percebe que aquela atitude irregular poderá acarretar severas sanções, ele muda de idéia e de comportamento optando por respeitar a lei. E isto ocorre por uma característica intrínseca ao ser humano. Atuamos, invariavelmente, por comodidade pessoal e muitas vezes por puro egoísmo.

Se as condições do momento nos permitem, somos capazes de fazer coisas que sabemos não serem as mais corretas. Mas fazemos porque nos convém. Se essas coisas deixam de ser convenientes porque podem nos trazer prejuízos superiores aos eventuais benefícios, simplesmente deixamos de fazê-las.


Fernando Pedrosa
Jornalista e Publicitário. Especialista em Prevenção no Trânsito.
Ex- Coordenador do Programa PARE do Ministério dos Transportes
Membro da Câmara Temática de Educação e Cidadania do CONTRAN 2002/2006



<< Voltar

Copyright© 2009 ESTRADAS todos os direitos reservados. All rights reserved.