Segurança no Trânsito

Fernando Luiz Nogueira Pedrosa


Publicidade que deseduca

É opinião unânime dentre os especialistas que militam no trânsito - especialmente aqueles envolvidos com a questão da segurança na circulação - que a redução das ocorrências trágicas nas ruas e estradas brasileiras só será alcançada aplicando-se com seriedade e sem demagogia fiscalização pontual, punição justa e imediata, precedida naturalmente, pela perna mais importante desse tripé que é a educação, no seu conceito mais amplo que compreende a educação para o trânsito nas escolas (como determina o próprio código de trânsito brasileiro); a educação familiar transmitida pelos pais nos exemplos que dão aos seus jovens; a educação na formação técnica dos agentes e autoridades que têm responsabilidade no trânsito e a educação de toda a sociedade, através da abordagem correta dos meios de comunicação nos assuntos pertinentes e nas campanhas publicitárias que adotam os elementos do trânsito como argumento de venda de serviços e produtos.

Essa tem sido a preocupação constante dos membros da Câmara Temática de Educação para o Trânsito e Cidadania, órgão de assessoria do CONTRAN - Conselho Nacional de Trânsito - constituída por 26 especialistas de todo o Brasil - dentre os quais me incluo - e que se reúnem mensalmente para analisar as demandas do Conselho propondo medidas no seu campo de atuação. Durante o ano de 2006 um tema recorrente nessas reuniões foi, exatamente, a solução para fortalecer as campanhas educativas que são sempre modestas - sob o ponto de vista do impacto na comunicação e do volume de inserções - e que ainda sofrem a concorrência desproporcional da publicidade de muitas empresas que usam a temática de trânsito de forma equivocada, perigosa e muitas vezes ilegal, como estratégia comercial.

O mais recente exemplo vem de um dos lideres do segmento bancário que, por ironia, detém a exclusividade do recolhimento das taxas do órgão estadual de trânsito no Rio de Janeiro. Em sua peça de verão - um grande anúncio impresso de página dupla - o texto anuncia: É ASSIM QUE O ITAÚ DESEJA BOAS FÉRIAS PARA VOCÊ. Na foto que ilustra a peça, uma cena aparentemente inocente e bucólica. Uma caminhonete aberta, trafegando nas areias de uma praia deserta, levando em sua caçamba um jovem alegremente recostado.

Muito bem. E daí? E daí, é que se os executivos que aprovaram a publicidade do banco e os criativos publicitários que desenvolveram a campanha fossem bem informados e razoavelmente educados no trânsito, saberiam que o QUE O ITAÚ DESEJA NAS FÉRIAS para seus clientes é que coloquem em risco a sua segurança e recebam multas gravíssimas.

E não me refiro à questão ambiental, no caso da circulação de um veículo automotor sobre a areia que não é pista de rolamento e sim área para pedestres, também considerado infração. Mas na questão específica da segurança no transportes de passageiros.

Está no Código de Trânsito Brasileiro e, com certeza, no conteúdo curricular de todos os centros de formação de condutores (as antigas auto-escolas).
Inciso II do artigo 230 - É proibido transportar passageiros em compartimento de carga, salvo por motivo de força maior e com permissão da autoridade competente. Infração gravíssima, multa de R$191,54 e apreensão do veículo.

Na assinatura do anúncio ainda é possível ler: NESTE VERÃO CONTE COM TODA A CONVENIÊNCIA DO ITAU. Na minha modesta opinião, não há nada mais inconveniente em tempos de férias do que sofrer acidentes, gastar o dinheiro cuidadosamente reservado para o lazer com o pagamento de multas pesadas e trocar o conforto da cama de bons hotéis pelos leitos frios dos hospitais.

Esse é apenas o mais recente exemplo de campanhas publicitárias que - certamente por ignorância e não má fé - andam na "contramão" das regras básicas da segurança e da cidadania no trânsito. Nesse universo destacam-se até montadoras e fabricantes de peças da indústria automotiva que ainda não perceberam que conforto, tranqüilidade, prevenção, segurança, confiança e legalidade são companhias melhores para qualquer viagem e um excepcional argumento de venda para futuros clientes responsáveis e conscientes.


Fernando Pedrosa
Jornalista e Publicitário. Especialista em Prevenção no Trânsito.
Ex- Coordenador do Programa PARE do Ministério dos Transportes
Membro da Câmara Temática de Educação e Cidadania do CONTRAN 2002/2006



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