Fernando
Luiz Nogueira Pedrosa
Prevenir
acidentes também pede política
As estatísticas de acidentes de trânsito
no Brasil são simplesmente impressionantes e
nos colocam no topo do ranking mundial dentre os paises
que mais matam e ferem no trânsito. Todos os dias
lemos notícias nos jornais e vemos imagens na
TV de tragédias rodoviárias que, com a
certeza, se repetirão muitas vezes mudando apenas
cenários e os tristes personagens. Mas o que
mais impressiona nesse drama cotidiano é perceber
que não somos capazes de reagir, como se o mal
fosse inevitável, assumindo uma inexplicável
postura de conformismo e resignação.
Talvez a explicação esteja no fato
de que as estatísticas, na verdade, são
números frios e que não servem para
mostrar a verdadeira dimensão dessa tragédia
do asfalto brasileiro. Tragédia que simplificadamente
pode ser representada pela interrupção
abrupta e violenta de vidas, pela indescritível
dor das famílias enlutadas e pelas limitações
físicas e mentais dos sobreviventes sequelados.
Não faz muito tempo, a sociedade começou
a despertar timidamente para essa questão.
A promulgação da Lei 9.503, que instituiu
um novo Código de Trânsito Brasileiro
promulgado em 1997, imprimiu forte ênfase na
valorização da vida e estabeleceu as
bases para uma nova maneira de encarar e tratar a
circulação nas vias que, entretanto,
não avançaram para ações
concretas. Depois de quase 10 anos da nova lei nada
ou muito pouco se fez no campo da prevenção
e da redução de acidentes de forma planejada
e abrangente.
Sem dúvida essa inexplicável inércia
não é por falta de capacidade técnica
dos quadros que compõem o sistema nem de ausência
de estrutura institucional. Pelo contrário,
temos no país nada menos do que 5 ministérios
na esfera federal, mais de 20 departamentos de trânsito
nos estados e milhares de organismos municipais tratando
do trânsito. Sem empregar muito esforço
investigativo, podemos constatar que o que falta realmente
para alcançarmos um trânsito razoavelmente
civilizado e menos letal é estratégia,
compromisso e ação.
Recursos humanos e financeiros são fartos
e estão legalmente disponíveis. O código
de trânsito destinou parte da gigantesca receita
das multas em todo o Brasil para as ações
de fiscalização, engenharia e educação.
Com isso o legislador, numa inteligente decisão,
garantiu recursos exclusivos que são "patrocinados"
exatamente pelo mau condutor, responsável maior
pela tragédia.
Mas, infelizmente, esses valores não são
adequadamente empregados para a redução
dos índices de acidentes no Brasil. Como não
há uma estratégia definida a favor da
vida no trânsito, falta o compromisso e a ação
por conseqüência.
Temos, é verdade, uma Política Nacional
de Trânsito. Um instrumento de governo que tem
como grandes objetivos promover o crescimento, a geração
de trabalho e renda, a inclusão social, a redução
das desigualdades e a promoção da cidadania.
Mas falta ainda uma política específica
de governo para a efetiva redução dos
acidentes de trânsito assim como há para
a AIDS, aliás vitoriosa e modelar para o resto
do mundo.
Falta articulação eficiente entre as
instituições do Sistema Nacional de
Trânsito e outras organizações
da sociedade civil que promova a indispensável
mobilização de todos em torno da redução
dos acidentes.
Para que a segurança no trânsito possa
ser tratada como uma política de governo, com
metas arrojadas e gerenciamento exclusivo que permita
estabelecer e ampliar parcerias é preciso estabelecer
um PLANO NACIONAL DE REDUÇÃO DE ACIDENTES
DE TRÂNSITO capaz de "nacionalizar"
as incontáveis ações pontuais
e isoladas - algumas até bem sucedidas outras
apenas bem intencionadas - que são de alcance
limitados e/ou localizado. Um plano que evite o desperdício
de idéias e talentos, que combata o retrabalho
e a superposição de esforços
e que estabeleça ao mesmo tempo a indispensável
unidade conceitual.
Nada do que aqui foi dito nesse artigo é novidade.
É apenas inédito.
Ou melhor, tudo o que aqui foi dito é do conhecimento
de quem trabalha no ramo só que ainda não
foi feito.
Se a onda sequencial de acidentes gravíssimos
que temos visto ultimamente desenha um cenário
extremamente preocupante, serve também como
sinal claro de que é preciso uma outra onda,
de redução de acidentes, ainda mais
forte e com efeitos permanente e nacional. Não
podemos admitir retrocesso nas conquistas alcançadas
com o novo código e nem desperdiçar
a excepcional receptividade da população
para iniciativas que valorizem a vida.
O problema, pela sua gravidade, deve ser assumido
pelas mais altas autoridades do país como uma
clara sinalização de prioridade nacional.
Mas trânsito não pode ser visto apenas
como uma ação de governo. As ações
precisam sim ser descentralizadas. Mas estratégias
e procedimentos devem ser unificados a partir de um
plano nacional que articule os esforços de
engenharia, fiscalização e educação.
Nenhum esforço isolado, por melhor que seja
a intenção, terá sucesso se não
houver planejamento, ação e acompanhamento.
O problema dos acidentes de trânsito precisa
ser tratado numa perspectiva de longo prazo - que
atravesse gerações e governos - para
a sedimentação definitiva do inquestionável
direito do cidadão de ir-e-vr com segurança
e civilidade.
Fernando Pedrosa
Jornalista e Publicitário. Especialista
em Prevenção no Trânsito.
Ex- Coordenador do Programa PARE do Ministério
dos Transportes
Membro da Câmara Temática de Educação
e Cidadania do CONTRAN 2002/2006
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