Fernando
Luiz Nogueira Pedrosa
Porque
respeitar e preservar as leis de trânsito
A organização Mundial de Saúde,
em seu relatório anual de 2004, classificou os
chamados "acidentes de trânsito" como
uma questão de saúde pública pela
sua característica de pandemia, atingindo todo
o mundo com intensidade variada.
Para essa terrível doença social a
ciência e a medicina ainda não conseguiram
desenvolver vacinas eficientes. Mas, como algumas
doenças convencionais que não têm
cura definitiva, ela pode ser tratada de forma adequada
e, assim, ser razoavelmente controlada e ter seus
índices de mortalidade significativamente reduzidos.
E aí está o grande desafio, não
só das autoridades de trânsito, mas principalmente
de toda a sociedade uma vez que é ela, a sociedade,
ao mesmo tempo, algoz e vítima da violência
sobre rodas.
O trânsito é, com certeza, o maior espaço
democrático do mundo. Nele convivem homens
e mulheres de todas as idades, de diferentes raças
e credos e de todos os níveis sociais e econômicos.
Para que essa convivência tenha um mínimo
de harmonia é preciso que haja regras e que
as mesmas sejam democraticamente cumpridas. Um relaxamento,
um descuido ou negligência nessa condição
básica transforma esse espaço em uma
verdadeira arena onde se confrontam direta e indistintamente
contendores, alguns desarmados e outros tantos sob
armaduras de metal e quatro rodas.
Assim é no trânsito como assim é
na vida desde os tempos em que ainda habitávamos
cavernas. Isso é necessário para que
cada pessoa aprenda o indispensável para viver
em integração, num processo permanente
de socialização.
Na vida, assim como no trânsito, não
pode haver alternativa. O que se exige é comportamento
equilibrado e respeito às regras estabelecidas
pelo grupo no qual convive, sabendo cada um de seus
próprios limites, de seus deveres sociais,
reconhecendo e respeitando as autoridades, sejam elas
pais, professores, superiores hierárquicos,
as normas de trânsito ou seus agentes. Negligenciar
esse verdadeiro compromisso social no trânsito
é transformar o veículo em uma arma
letal e o direito de ir-e-vir em uma viagem sem volta.
Portanto, digo em alto e bom som, que não
é só possível respeitar as leis
de trânsito, mas que é preciso defendê-las
com fervor porque se trata de uma questão de
sobrevivência.
Acidentes com muitas mortes e feridos é o
lado nefasto desse fabuloso instrumento da vida moderna
que diminui distâncias. Aliás, o próprio
termo acidente é absolutamente inadequado para
classificar ocorrências que poderiam ser evitadas
por serem rigorosamente previsíveis. Muitos
especialistas evitam usá-lo e empregam, como
eu, a terminologia clássica de cada uma dessas
ocorrências como a colisão, o capotamento,
o atropelamento, etc.
Nas manifestações públicas que
faço sobre a temática de trânsito
costumo sempre dizer que cada acidente de trânsito
é uma infração que não
deu certo. Por trás de muitos atropelamentos,
há o avanço de sinal ou o excesso de
velocidade. Por trás de uma colisão
frontal, há sempre uma ultrapassagem indevida
e por aí vai...
No início desse artigo fizemos uma analogia
com a área de saúde. Identificamos o
"acidente" como uma verdadeira doença
social e vamos encerrar usando a mesma figura, afirmando
que a cura desse grande mal está exatamente
na consciência crítica de cada doente.
Saber identificar os riscos, ter a humildade de reconhecer
os erros e a disposição de corrigi-los
é o primeiro passo para a recuperação
da saúde do trânsito.
O segundo, é procurar ajudar outros doentes
alertando-os e favorecendo-os com a mesma receita
que deu certo em seu caso.
Por fim, erradicar o vetor, o foco viral, o elemento
de contaminação que transforma seres
humanos naturalmente gentis e delicados em bestas-feras
sobre rodas. E esse "vírus" é
a ignorância e a negligência que devem
ser permanentemente combatidos com a boa informação
e educação de qualidade. Começando
pela mais primária de toda a educação:
a doméstica, aquela que aprendemos e transmitimos
pelos exemplos de casa.
Fernando Pedrosa
Jornalista e Publicitário. Especialista
em Prevenção no Trânsito.
Ex- Coordenador do Programa PARE do Ministério
dos Transportes
Membro da Câmara Temática de Educação
e Cidadania do CONTRAN 2002/2006
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