Segurança no Trânsito

Fernando Luiz Nogueira Pedrosa


Os efeitos psico-sociais dos acidentes de trânsito

Estudos realizados por especialistas de todo o mundo sobre as conseqüências dos acidentes de trânsito enfocam quase que exclusivamente os efeitos físicos da ocorrência, negligenciando freqüentemente a complexidade do ser humano que nas suas manifestações combina aspectos biológicos, psicológicos, culturais e sociais.

Um excepcional trabalho desenvolvido por especialistas uruguaios (Barrios, Parodi e Barbot) trata com muita propriedade os efeitos colaterais dos acidentes com vítimas. Tanto para os agentes diretamente envolvidos, quanto para as vítimas indiretas, como parentes e amigos próximos desses agentes.

Quando se avalia a conseqüência de um acidente de trânsito é necessário diferenciar as ocorrências que culminam em morte daquelas sem vítimas fatais. Dentre os acidentes com feridos, também é fundamental distinguir aqueles que deixam seqüelas graves e permanentes dos que são temporais. Neste amplo e complexo espaço para reflexão o trabalho dos três estudiosos uruguaios deteve-se na análise de experiências com indivíduos que, tendo sobrevivido a gravíssimos acidentes de trânsito, passaram a conviver com seqüelas graves e limitações físicas.

Sabemos que qualquer acidente de trânsito, mesmo sem mortos e feridos graves, influem de alguma maneira na vida dos envolvidos. Mas as ocorrências com vítimas, além das lesões físicas, deixam também marcas psico-socias profundas. Dependendo do grau de envolvimento de cada indivíduo na situação que provocou o acidente é que se define concomitantemente o tamanho da “ferida psíquica” que vai ficar.

As manifestações públicas de autoridades e a repercussão do acidente e suas conseqüências, fazem surgir diversos sentimentos - favoráveis ou não - sobre os atores envolvidos. Nunca é a mesma coisa acidentar-se sendo o motorista ou sendo o pedestre. Um acidente de trânsito que ocorre durante a madrugada envolvendo jovens que retornam de uma festa é sentido de forma absolutamente diferente do acidente que atinge um jovem que, durante o dia, se deslocava de casa para seu trabalho. O impacto nunca é o mesmo quando esses indesejáveis acontecimentos ainda alcançam crianças inocentes ou idosos indefesos. Diversos sentimentos afloram na mente e nos corações das pessoas, de forma subjetiva e individual. Dor, tristeza, compaixão e solidão se confundem muitas vezes com o ressentimento, a vergonha, a raiva e a humilhação.Um ser humano lesionado em decorrência de um acidente de trânsito além de sofrer as consequências físicas de sua lesão, ainda experimenta processos psíquicos como o choque, a confusão mental e a depressão. Some-se a isso o fenômeno do corte abrupto na rotina de sua existência, comprometendo toda a sua expectativa para o futuro muitas vezes longamente planejada e construída.

As vítimas dos acidentes, assim como os seus familiares mais próximos, enfrentam um processo que não é de todo negativo. Numa sociedade competitiva e acelerada como a que vivemos, a “parada obrigatória” exigida pelo acidente leva a todos, num primeiro momento, a um ato de reflexão existencial, de estreitamento de laços afetivos e do pleno exercício da solidariedade que, apesar de tudo, refletem o que temos de bom em nossa natureza. Entretanto, ao longo do tempo, as relações familiares vão se tornando conflituosas verificando-se que a intolerância passa a substituir a paciência e a depressão ocupa o lugar que era antes ocupado pelo conformismo.

Este é, certamente, o primeiro efeito colateral sentido por quem sofreu um acidente de trânsito. Neste momento entra em jogo o “capital familiar”, o conjunto de recursos afetivos que irão permitir em maior ou menor escala que se superem as crises, os momentos difíceis e os prejuízos decorrentes.

Outro efeito psico-social são as repercussões econômicas e trabalhistas. Um sequelado no trânsito muitas vezes perde seu emprego. Outros, não conseguem mais exercitar suas habilidades motoras comprometendo suas funções. Há em decorrência dessa situação aposentadorias precoces, gastos com recuperação fisioterápica e ocupacional e necessidade de novas capacitações funcionais.

Por fim, as privações físicas e motoras de grande extensão, que podem chegar a um nível de incapacitação total até para as necessidades fisiológicas mais básicas como comer e banhar-se.

Por esse pouco que aqui está escrito e por muito mais que sabemos existir, é absolutamente necessário que visualize-mos a situação das vítimas dos acidentes de trânsito não só sob a ótica da dimensão biológica. Mas sim em sua total dimensão humana, existencial e social.

Faz-se necessário uma abordagem integral e cuidadosa da complexidade implícita nas repercussões dos acidentes, indicando-se caminhos para a melhoria da qualidade de vida, dos níveis de assistência médica/psicológica durante o tratamento e a convalescença e, acima de tudo, de um tratamento preventivo adequado.


Fernando Pedrosa
Jornalista e Publicitário. Especialista em Prevenção no Trânsito.
Ex- Coordenador do Programa PARE do Ministério dos Transportes
Membro da Câmara Temática de Educação e Cidadania do CONTRAN 2002/2006



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