Fernando
Luiz Nogueira Pedrosa
O
peso da idade ao volante
Existem sutis diferenças entre os motoristas
mais jovens e os de idade avançada que, embora
imperceptíveis numa avaliação superficial,
podem representar sérias ameaças à
segurança de trânsito.
Um interessante estudo desenvolvido pelas médicas
inglesas Rosemary Morgan e Debora King, da equipe do
Withington Hospital de Manchester, revela esses riscos
ao mesmo tempo em que sugere medidas preventivas que
podem reduzir as ocorrências trágicas.
A partir dos 60 anos de idade as pessoas estão
sujeitas com muito mais freqüência a deficiências
cognitivas e motoras que afetam a sua atenção
e perícia ao volante. Muitas vezes, essas pessoas,
como conseqüência natural da idade, convivem
já com alguma doença crônica ou
estão sob efeitos de medicamentos que poderão
influir de maneira adversa nos seus reflexos ou na sua
capacidade de percepção.
Atualmente, o índice de condutores mais velhos
em todo o mundo não é elevado. Entretanto,
em função do avanço da medicina
e da indústria farmacêutica, que têm
proporcionado mais vitalidade e longevidade ao ser humano,
esse número certamente vai crescer e passa a
preocupar com mais intensidade os especialistas em segurança
viária.
O estudo inglês constatou que muitos idosos, conscientes
da redução de suas funções,
tendem a trafegar nas estradas em períodos mais
curtos e em velocidades mais baixas. Também evitam
trafegar à noite em horários onde o trânsito
é mais pesado e intenso. Mesmo assim, pela debilidade
física natural dos mais velhos, os acidentes
de trânsito com idosos têm probabilidades
3 vezes maiores de ser fatal, caso acontecesse com motoristas
jovens.
Por outro lado, o ato de dirigir é sem dúvida
uma importante maneira de conservar a liberdade e a
independência das pessoas, principalmente daquelas
em idade avançada que sempre dirigiram e que
se sentem profundamente limitados quando impedidos de
conduzirem seus automóveis e acusam exatamente
por isso, uma redução na sua qualidade
de vida.
É portanto fundamental garantir e proteger o
direito dos idosos de conduzir veículos, desde
que tenham capacidade para fazê-lo.
MUDANÇAS RELACIONADAS COM A IDADE
O dano cognitivo (capacidade de adquirir e absorver
conhecimentos) aumenta com a idade e pode resultar em
perda de memória, redução da atenção,
dificuldade na percepção visual e na capacidade
de julgamento de situações que podem interferir
na habilidade do condutor.
A diminuição na velocidade de resposta
psicomotora também é uma seqüela
freqüente do envelhecimento. As razões ainda
não estão claras. Mas deve-se provavelmente
aos processos degenerativos nervosos. A força
motora é importante para quem dirige porque é
diretamente responsável pelo tempo de reação.
Isto é, a velocidade da resposta motora a um
simples estímulo cerebral.
Em suma, o comprometimento da capacidade de captar informações
e reagir por estímulos, assim como as limitações
das funções do músculo-esquelético
– incluída aí a diminuição
da força e da flexibilidade muscular –
influem adversamente na qualidade da condução.
(Continua na próxima edição)
Na edição passada começamos a tratar
da influência da idade nos níveis de segurança
dos condutores de veículos automotores. As avaliações
e as conclusões apresentadas integram um valioso
estudo desenvolvido por duas médicas inglesas
- Dras. Rosemary Morgan e Debora King do Withington
Hospital - que em tese pode contribuir significativamente
para identificar os riscos latentes e oferecer, ao mesmo
tempo, medidas de proteção.
REGRESSÃO DOS SENTIDOS
O declínio da acuidade visual se verifica evolutivamente
com o aumento da idade. A visão periférica
– a angulação do campo visual –
que em um adulto jovem é de cerca de 190 graus
cai para 150 graus aos 50 anos de idade e vai regredindo
gradativamente. Esse fenômeno, absolutamente natural,
quando acontece com motoristas idosos é um verdadeiro
sinal de perigo porque sabemos que a informação
sensorial de qualquer condutor depende fundamentalmente
da percepção visual. As pessoas com visão
periférica comprometida têm taxas de riscos
de acidentes duas e até três vezes mais
altas do que aqueles que ainda mantém plena capacidade.
Com o passar dos anos a dificuldade vai aumentando principalmente
à noite, não só pela perda da visão
periférica mas também pela presença
de doenças oculares muito comuns na idade avançada
como a catarata e o glaucoma. O mais grave é
que esse fatores de risco se verificam de forma lenta
e gradual, sem sintomas muito evidentes, levando o condutor
idoso a não ter consciência muito clara
de suas deficiências e dos riscos envolvidos.
Não é outra a razão que leva autoridades
de todo o mundo reduzirem o espaço de tempo dos
exames médicos para a renovação
da habilitação, na medida em que a idade
do condutor aumenta. Em alguns paises, notadamente os
mais desenvolvidos e que têm uma verdadeira política
de prevenção de acidentes viários,
os médicos credenciados pelos organismos de trânsito
são solidários com seus pacientes na responsabilidade
de conduzir. Isto é, podem responder juridicamente
por qualquer ocorrência grave no trânsito.
No Reino Unido, por exemplo, há um caso clássico
de um médico que negligenciou as deficiências
clínicas de um paciente candidato à renovação
da habilitação deixando também
de notificar a autoridade. Foi por isso responsabilizado
diretamente pelo acidente com vítima fatal no
qual se envolveu seu cliente.
Além das deficiências visuais, as doenças
crônicas como a epilepsia, a cardiopatia, o diabetes
e a insuficiência renal aumentam os riscos de
acidentes. Especial atenção deve ter também
condutores com quadros clínicos de derrames,
doença de Parkinson, disfunções
neurológicas e degenerações ósseo-articulares.
MEDICAMENTOS E O ATO DE DIRIGIR
Os condutores em idade avançada não são
os únicos que tomam remédios. Mas são
os que têm maiores probabilidades de estarem conduzindo
veículos sob efeitos de alguma medicação.
São também, comprovadamente, os mais propensos
aos efeitos colaterais. As drogas que afetam as funções
psico-motoras por sedação, por exemplo,
são prescritas com muita freqüência
na velhice. Os médicos precisam estar conscientes
desses aspectos, não só pelas questões
éticas e legais envolvidas - como no caso inglês
acima relatado - mas principalmente pela salvaguarda
da vida de seus pacientes.
Esse artigo, extraído de um sério trabalho
científico inglês, não tem a intenção
de amedrontar ou restringir o direito de ir-e-vir dos
mais velhos. Sabemos que o ato de dirigir para muitos
idosos é um sinal claro de liberdade e que garante
a indispensável independência.
O que pretendemos é tão somente alertar
e prevenir sobre alguns riscos sérios, conseqüentes
de estado de saúde debilitado próprio
da idade avançada.
Fernando Pedrosa
Jornalista e Publicitário. Especialista
em Prevenção no Trânsito.
Ex- Coordenador do Programa PARE do Ministério
dos Transportes
Membro da Câmara Temática de Educação
e Cidadania do CONTRAN 2002/2006
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