Segurança no Trânsito

Fernando Luiz Nogueira Pedrosa


Novas políticas para velhos problemas

Por trás de toda a euforia e da satisfação que sentiu a sociedade em função de um novo governo que assumiu os destinos de nosso país, revela-se uma gigantesca e incontida esperança de que, apesar de todas as dificuldades, possam ocorrer grandes mudanças que venham trazer para a nossa sofrida população dias melhores.

Entretanto, é preciso muita racionalidade e bom senso. O cidadão brasileiro não pode esperar por milagres e deve torcer para que esse mesmo bom senso que ele vai exercitar prevaleça também entre os novos governantes para que tenham coragem para sustentar e fortalecer medidas bem sucedidas, mesmo que sejam herança de governos passados.

Felizmente esse comportamento cidadão, que é conseqüência de um verdadeiro amadurecimento político, tem sido praticado com eficiência pela administração do Presidente Luis Inácio Lula da Silva - principalmente na área econômica - cujos reflexos positivos podem ser traduzidos pela reação amplamente favorável do mercado financeiro e pelas manifestações de apoio e admiração da comunidade internacional.

Mas o que há de verdadeiramente novo na área de trânsito, notadamente nas atividades de prevenção e redução dos acidentes nas ruas e estradas brasileiras?

O que há de novidade, por enquanto, é criação de um Ministério inédito, o das Cidades, para onde migrarão as diversas entidades públicas que interagem com os municípios. Dentre essas organizações espalhadas por outros ministérios destaca-se o DENATRAN, órgão executivo de trânsito do governo federal, responsável pela normatização e supervisão de todo o trânsito viário nacional, até então sob a responsabilidade do Ministério da Justiça.

Teremos então o Ministério das Cidades cuidando do trânsito brasileiro.
De fato, o trânsito urbano é hoje uma das maiores preocupações de todas as autoridades municipais, não só pelo seu significado como fonte de receita oriunda da aplicação de multas – novidade introduzida pelo novo Código de Trânsito Brasileiro – mas principalmente pelo que representa como indicador de uma administração eficiente quando se alcança a fluidez no tráfego (engenharia de trânsito) e se reduz acidentes viários (civilidade e harmonia no trânsito).

Mas há uma questão para qual ainda não encontramos resposta satisfatória. Será o Ministério das Cidades órgão competente e suficiente para tratar da questão da segurança no trânsito nos cerca 1 milhão e 800 mil quilômetros de estradas federais, estaduais e municipais que cortam esse nosso imenso território e que colocam o Brasil como a 2a maior malha rodoviária do mundo, atrás apenas dos EUA?

Não nos parece adequado atrelar a segurança rodoviária (trânsito rural) a um ministério metropolitano ( trânsito urbano). Os problemas são distintos e, por conseguinte, as soluções também. Desde o planejamento viário, passando pelo perfil do condutor e culminando com o processo de fiscalização, o que se aplica nas ruas é diferente do que deve ser empregado nas estradas.

Os limites de velocidade nas rodovias, por exemplo, são significativamente maiores do que aqueles estabelecidos para as vias urbanas. As conseqüências de um acidente a 80, 110 ou 120 km/hora são, por analogia, muito mais graves dos que ocorrem me velocidades de 40, 50 e 60km/h. Nas estradas e rodovias, os percursos cumpridos são na maioria das vezes superiores aos trajetos urbanos. Isso expõe o condutor rodoviário a um risco muito maior do que o condutor metropolitano. O tráfego rodoviário, que liga centros urbanos distintos, registra com muito maior intensidade a presença freqüente de veículos de grande porte que trafegam ao lado de pequenos veículos de passeio. Essa característica exige uma combinação de fatores como técnicas de direção, de sinalização e fiscalização diferentes das empregadas normalmente nas cidades.

Enfim, são muitas as variáveis típicas das estradas e rodovias que precisam ser convenientemente identificadas e cuidadosamente aplicadas para o desenvolvimento e implantação de programas de prevenção de acidentes.

Todo o conhecimento e a “expertise” do Ministério dos Transportes nessa matéria precisa ser reconhecida e, mais do que isso, aproveitada. Independente do estigma negativo de siglas antigas (como a do antigo DNER, fruto de deslizes condenáveis de alguns administradores), há uma verdadeira e valiosa cultura rodoviarista que não pode ser desperdiçada. Não podemos também esquecer do PARE, Programa de Redução de Acidentes no Trânsito, que em menos de 10 anos de atuação concebeu e implementou campanhas memoráveis de conscientização popular, com reflexos comprovados na redução das estatísticas de acidentes, e que vem desenvolvendo estudos técnicos que são oferecidos à sociedade visando um trânsito mais civilizado e harmônico onde sempre prevaleça o transporte seguro de bens e pessoas nas vias brasileiras.


Fernando Pedrosa
Jornalista e Publicitário. Especialista em Prevenção no Trânsito.
Ex- Coordenador do Programa PARE do Ministério dos Transportes
Membro da Câmara Temática de Educação e Cidadania do CONTRAN 2002/2006



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