Fernando
Luiz Nogueira Pedrosa
Justiça
sem fronteira nem nacionalidade
Manhã de 11 de março de 2003, uma terça-feira
de muitas nuvens no céu da cidade do Rio de Janeiro.
No Aeroporto Santos Dumont, preparava-me para embarcar
com destino a Brasilia, onde participaria de uma reunião
com a Coordenação Geral do Programa de
Redução de Acidentes no Trânsito
do Ministério dos Transportes. Na minha pequena
bagagem de mão, números e estatísticas
recentes que indicavam o recrudescimento da violência
do trânsito na Cidade Maravilhosa e que justificavam
plenamente a proposta que levava de retomar as ações
de mobilização social de convencimento
popular para os riscos da condução irresponsável.
Acomodado no assento da aeronave, com o cinto de segurança
atado e ocelular desligado procurei me distrair com
a leitura do exemplar de O GLOBO, gentilmente oferecido
pela comissária de bordo. Logo na primeira página
uma foto colorida de grandes proporções
chamou a minha atenção a de todos os demais
passageiros a minha volta. Via-se um casal fortemente
abraçado, ao lado de um veículo destruído
e de um corpo sem vida que jazia coberto no asfalto.
O choque foi imediato.
Nada do que eu estava levando em minha pasta de trabalho
era mais convincente e revelador do que aquela imagem
forte e chocante. Na legenda, o texto: "Fernando
e Luciane Diniz, desesperados, se abraçam no
local do acidente em que seu filho Fabrício de
20 anos e outras duas jovens morreram na madrugada de
ontem na Barra da Tijuca".
O vôo Rio-Brasília, de quase duas horas,
não teve outro assunto. O que mais se ouvia a
bordo eram os comentários sobre a violência
urbana sobre rodas, invisível e traiçoeira,
que estava matando e ferindo como nunca os jovens de
nossas cidades.
Desembarcando em Brasilia fiz das páginas do
jornal os meus novos argumentos para a reunião
que iria participar e que acabaram por influir decisivamente
pela retomada das ações da Campanha AMIGO
DA VEZ (ação de abordagem aos jovens que
saem em grupo e motorizados para a diversão).
Voltando ao Rio, com a campanha do AMIGO DA VEZ para
ser deflagrada, procurei contato com o casal da foto.
Mais do que simplesmente prestar algum tipo de solidariedade
eu queria, na verdade, tentar convencê-los a participar
da campanha. A grandeza desse casal mais uma vez me
surpreendeu. Extremamente abalados e machucados pela
enorme tragédia, mas fortalecidos pela fé
em Deus, Fernando e Luciane Diniz concordaram de imediato
com o convite e se engajaram em nossas ações
arrastando com eles um significativo número de
amigos e parentes do saudoso Fabrício.
Sufocando a dor, esse novo contingente de "agentes
da cidadania no trânsito" juntaram suas vozes
a nossa e, com seu exemplo e testemunho, pediam aos
jovens abordados que continuassem vivos, alegres e felizes
observando, para isso, uma pequena e fundamental regra:
SE ESTÃO DIRIGINDO, FAÇAM ISSO COM EXTREMO
CUIDADO E ABSOLUTA RESPONSABILIDADE.
O exemplo incomum de Fernando, Luciane e Fernanda ?
outra filha do casal? é algo comovente e merece
ser destacado. Aliás, mais do que isso.
Deve ser copiado e multiplicado. Hoje, engajados em
movimentos e iniciativas de organizações
públicas e sociais, a família Diniz não
mede esforços nem sacrifícios para participar
de ações de valorização
da vida.
Caminhadas, Encontros, Palestras, Entrevistas, Consultas
e outras tantas atividades já fazem parte do
cotidiano dessas pessoas especiais que nos mostram com
sua grandeza um novo paradigma para a verdadeira CIDADANIA
RESPONSÁVEL.
A família Diniz enfrenta agora uma nova etapa
de sua longa - e talvez eterna - provação.
Fabrício, seu inesquecível filho, assim
como duas outras jovens que viajavam com ele naquela
noite fatídica de 10 de março de 2003,
sucumbiu tragicamente como conseqüência direta
da conduta irresponsável de um outro jovem, MARCELO
HENRIQUE NEGRÃO KIJAK, que por excesso de velocidade
perdeu o controle do veículo que dirigia e colidiu
violentamente com um poste de concreto derrubando-o
e matando instantaneamente os jovens ocupantes do banco
traseiro do Peugeot. Fabrício, Mariana e Juliane,
todos com idade entre 18 e 20 anos.
O laudo pericial foi taxativo. Excesso de velocidade.
A conseqüência, infelizmente, irreparável.
A perda da vida desses jovens promissores e a interrupção
abrupta dos sonhos e esperanças de 3 famílias.
Em linguagem fria e técnica, o que de fato aconteceu
foi uma GRAVÍSSIMA infração de
trânsito que culminou com danos ao patrimônio
público (derrubada do poste e do transformador
elétrico que sustentava), danos a bens privados
veículos estacionados no pátio de uma
concessionária também atingidos) e um
triplo homicídio. MARCELO KIJAK, o condutor do
veículo envolvido e portanto responsável
pelos acontecimentos, precisa responder pelos seus atos.
Assim decidiu a justiça e exatamente assim deve
entender a sociedade.
No decorrer do inquérito policial, que durou
7 longos meses (apesar de todas as evidências
cristalinas sobre a responsabilidade), Fernando Diniz
recebeu informações de que a família
de MARCELO KIJAK, de origem estrangeira, vinha adotando
comportamento típico de quem está de
mudança.
Os sinais eram bem claros de que a mudança não
seria apenas de endereço. Mas também de
atividade profissional e até de país residente.
Preocupado com essa possibilidade, Fernando Diniz por
meio de seu advogado peticionou a autoridade policial
responsável pelo inquérito informando-o
do risco e pedindo providências que, infelizmente,
não foram tomadas.
Instruído e bastante conclusivo o inquérito
policial foi finalmente encaminhado à justiça
que marcou a primeira audiência para o dia 13
de outubro passado. Como já esperava a Família
Diniz, o indiciado não compareceu, não
justificou sua ausência e nem constituiu defensor.
Em lugar incerto e não sabido - para usarmos
o jargão jurídico - MARCELO HENRIQUE NEGRÃO
KIJAK, um cidadão com dupla nacionalidade (filho
de pai uruguaio e mãe brasileira) teve a sua
derradeira chance de se explicar à justiça
brasileira no último dia 24, em nova audiência
marcada pelo Juiz, onde também não comapreceu.
Com mandado de prisão já expedido, MARCELO
KIJAK foi oficialmente declarado como um FUGITIVO DA
LEI A FAMÍLIA Diniz, assim como todos os seus
parentes, amigos e admiradores (dentre os quais tomo
a liberdade de me incluir), todos cidadãos de
respeito e cumpridores de seus deveres vão ajudar
a Justiça Brasileira na tentativa de localizar
o destino deste foragido.
Uma grande rede de apoio e solidariedade já está
formada. Os meios eletrônicos e os veículos
de comunicação estarão sendo estimulados
a se integrarem nesse esforço pela legalidade.
Fernando Diniz, por iniciativa própria, estará
nos primeiros dias do mês de dezembro na capital
uruguaia para contar sua história e clamar por
ajuda. Entidades civis e os principais periódicos
daquele país estarão mobilizados para
que essa tragédia, mais uma num rol infindável
de dor e desesperança, não termine de
forma injusta e absolutamente impune.
Porque final feliz essa história jamais terá!
Fernando Pedrosa
Jornalista e Publicitário. Especialista
em Prevenção no Trânsito.
Ex- Coordenador do Programa PARE do Ministério
dos Transportes
Membro da Câmara Temática de Educação
e Cidadania do CONTRAN 2002/2006
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