Fernando
Luiz Nogueira Pedrosa
Controle
eletrônico de velocidade: vilão ou herói?
A utilidade dos radares e das lombadas eletrônicas
que medem com precisão a velocidade desenvolvida
por veículos nas ruas e estradas brasileiras
tem sido objeto de acaloradas discussões nas
esquinas, nos bares até nas redações
dos jornais. Afinal, a tecnologia avançada que
utiliza recursos como o laser a fibra ótica está
sendo aplicada em benefício da sociedade na defesa
da vida humana ou trata-se apenas de um cruel e implacável
instrumento arrecadador de multas?
Embora não ignore a possibilidade da existência
da famosa “indústria de multas” a
população brasileira é francamente
favorável ao controle eletrônico na circulação
dos veículos. Uma pesquisa aplicada pelo IBOPE,
no final do mês de outubro, revelou que os radares,
pardais e lombadas instaladas nas vias agradam 84% do
universo entrevistado. Foram ouvidas 1.300 pessoas em
8 capitais brasileiras. Desse total, 46% acredita que
o monitoramento eletrônico é bastante eficiente
para reduzir o número de acidentes.
O resultado da pesquisa é muito importante porque
demonstra a preocupação da maioria da
população brasileira com a segurança
no trânsito e indica que eliminar as vantagens
tecnológicas legalmente conquistadas seria um
retrocesso. O que falta, para alguns dos entrevistados,
são critérios claros, bem definidos e
uniformes que transmitam a indispensável confiabilidade
ao sistema.
Não há como negar a absoluta necessidade
de maior controle na circulação de veículos
nas estradas brasileiras. Uma outra pesquisa por exemplo,
efetuada pela Confederação Nacional dos
Transportes no mesmo período do ano, apresentou
um resultado simplesmente estarrecedor. A cada mil quilômetros
de rodovia pavimentada morrem 213 pessoas por ano no
Brasil contra apenas 3 pessoas no Canadá. Nossas
estradas matam 70 vezes mais do que as estradas de países
mais ricos e desenvolvidos que, exatamente por isso,
ostentam frotas numericamente superiores.
A Itália, de sangue quente e latino como o nosso
e que exibe o pior índice de acidentes com mortes
no trânsito entre o grupo dos países ricos
ainda é bem melhor do que nós. Tem apenas
24 acidentes fatais por mil quilômetros rodados.
São dados como esses, claros e irrefutáveis,
que reforçam a posição dos especialistas
na defesa intransigente do controle eletrônico
de velocidade e que contribuíram certamente para
a opinião favorável dos entrevistados
pelo IBOPE.
EFICIÊNCIA E ISENÇÃO
Os radares são discretos, muitas vezes imperceptíveis
e servem para monitorar uma determinada extensão
de uma rodovia. As lombadas eletrônicas, por sua
vez, são bem visíveis, dispõem
de dispositivos sonoros e luminosos e são usados
em pontos fixos e específicos, onde há
riscos para a segurança de pedestres. São
equipamentos distintos, aplicados em situações
de trânsito diferenciadas mas que têm o
mesmo objetivo: o controle da velocidade. Por isso,
só devem ser instalados com base em estatísticas
de acidentes confiáveis e após estudos
sérios e isentos que atestem a sua necessidade.
Assim decidiu o CONTRAN em uma de suas últimas
reuniões. O Conselho também determinou
o fim dos contratos de radares com cláusulas
de produtividade. Devido ao alto custo desses equipamentos
e de sua operação, muitas autoridades
de trânsito brasileiras optavam por contratar
o serviço de empresas terceirizadas que recebiam
como pagamento um determinado percentual das multas
aplicadas. Essa prática está definitivamente
abolida desde o último dia 02 de novembro. Agora
as empresas que fornecem esse tipo de equipamento recebem
um preço fixo pelo serviço prestado, previamente
estabelecido, independente do volume de infrações
aplicadas.
OLHANDO PARA O NOSSO UMBIGO
A lição que precisamos definitivamente
aprender é de que a redução dos
índices de acidentes está unicamente na
mão de cada um de nós, cidadãos.
Muito mais do que leis modernas e de um efetivo controle
de sua aplicação, o que vai fazer baixar
nossos vergonhosos índices de fatalidade sobre
rodas é a consciência preventiva e um rigoroso
senso de respeito humano e responsabilidade coletiva.
Insistir que os acidentes são decorrência
da má sinalização e da baixa qualidade
das vias é usar o mesmo argumento quando falamos
da criminalidade, da corrupção e da violência
urbana. A culpa é sempre dos “outros”.
Da polícia incompetente, do governo negligente
ou de autoridades sem caráter. Todos, enfim,
são responsáveis de alguma maneira, menos,
é claro, cada um de nós que somos paradigmas
da correção e modelos perfeitos de correção.
Fernando Pedrosa
Jornalista e Publicitário. Especialista
em Prevenção no Trânsito.
Ex- Coordenador do Programa PARE do Ministério
dos Transportes
Membro da Câmara Temática de Educação
e Cidadania do CONTRAN 2002/2006
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