Segurança no Trânsito

Fernando Luiz Nogueira Pedrosa


Assim na terra como no céu

Não temos a menor idéia dos custos dos acidentes aéreos em nosso país. Mas seríamos capazes de apostar em valores bem inferiores aos custos dos acidentes de trânsito nas rodovias brasileiras, cerca de 27 bilhões de reais, recentemente divulgado pelo IPEA.

O acidente com o Boeing da GOL afetou-me diretamente. Naquela fatídica tarde de sexta-feira encerrava-se uma semana de intenso trabalho em Brasília, por conta das atividades da Semana Nacional de Trânsito, e aguardávamos o embarque no vôo 1907 com destino ao Rio de Janeiro, onde ocuparíamos o assento 17 D. Com quase duas horas de atraso sem qualquer explicação ou justificativa, fomos acomodados em outra aeronave e chegamos ao destino sem qualquer problema, mas ainda absolutamente desinformados. Na sala de desembarque, aguardando a chegada das bagagens e já com os celulares ligados, começava uma sucessão infindável de ligações dando-nos conta do acidente. A perplexidade foi geral e um confuso sentimento, que misturava fragilidade, angústia e alívio, contaminava todos. A dimensão da tragédia comoveu o Brasil e mobilizou, imediatamente, os meios de comunicação e uma complexa estrutura civil e militar que partiu em busca de informações precisas e, mais do que isso, da identificação das suas verdadeiras causas. Afinal, o Brasil pode se orgulhar de apresentar um dos mais baixos índices mundiais em ocorrências desse tipo - apesar do intenso tráfego aéreo em seu território - prova da competência e da seriedade dos que atuam, tanto na operação do transporte aéreo como no seu controle.

Foram 155 as vítimas fatais que sucumbiram por falha humana ou de equipamento. Pessoas inocentes, com sonhos e projetos de vida que foram violentamente interrompidos em meio a ferragens retorcidas. Exatamente como acontece no trânsito.

Mas por que no trânsito a reação não é igual?

Será porque o chamado "acidente aéreo" é um fenômeno raro e, exatamente por isso, quando ocorre surpreende? Ou será conseqüência direta da rígida observância das normas internacionais de prevenção e segurança que não são flexíveis quando se trata do transporte da mais valiosa carga que existe, a vida humana?

No trânsito rodoviário brasileiro, infelizmente, as coisas não funcionam assim. De tão freqüente o acidente de trânsito, geralmente provocado por imperícia, negligência e imprudência, é encarado pela sociedade com inexplicável naturalidade e tratado, até por algumas autoridades, com injustificável acomodação.
As exigências legais e preventivas na circulação viária de automóveis no Brasil são muitas vezes flexibilizadas, outras vezes pouco exigidas e respondem certamente pela enorme incidência de sinistros e pela banalização dos fatos, refletindo-se em um sentimento de conformismo inaceitável.

Na linha da comparação, é legítimo afirmar que no trânsito brasileiro temos um Boeing lotado caindo a cada dois dias. É só fazer as contas: morrem por ano cerca de 40 mil pessoas, vítimas dessa crônica violência sobre rodas.

Desse lamentável episódio com o avião de passageiros, tenho apenas duas certezas. A primeira, a indescritível dor dos parentes das vítimas que se transformaram em mártires do mais grave acidente aéreo brasileiro. A segunda, a de que ao final de algum tempo um relatório completo e detalhado vai identificar as causas, apontar culpados e atribuir responsabilidades, com todas as conseqüências cíveis e penais.

A primeira certeza, a da dor, é eterna e exatamente igual para as vítimas indiretas que são os familiares dos que morreram, seja em acidente aéreo ou terrestre.

Mas a segunda, a apuração rigorosa e a identificação das causas com as providências corretivas e punitivas decorrentes, não acontece, infelizmente, com a mesma intensidade no asfalto.


Fernando Pedrosa
(passageiro do Vôo 1907 da Gol do dia 29/09/2006, em sua escala de Brasília, que não aconteceu)
Jornalista e Publicitário. Especialista em Prevenção no Trânsito.
Ex- Coordenador do Programa PARE do Ministério dos Transportes
Membro da Câmara Temática de Educação e Cidadania do CONTRAN 2002/2006



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