Fernando
Luiz Nogueira Pedrosa
Álcool
sobre rodas
Excesso de velocidade, alguns goles a mais e negligência
na fixação da carga. Essa terrível
combinação parece ter sido a causa da
enorme tragédia provocada por um caminhão
que transportava toras de madeira e que colidiu, de
frente, com um ônibus de passageiros que fazia
o trajeto Porto Alegre-Bagé, no Rio Grande do
Sul. O saldo dramático desse acidente - se é
que podemos classificá-lo como acidente, quando
suas causas certamente poderiam ter sido evitadas -
foi danos materiais em 8 veículos atingidos e
14 vítimas fatais. 12 das quais residentes na
cidade de Bagé.
O impacto negativo dessa ocorrência e a grande
comoção que se abateu sobre a cidade gaúcha
- que decretou luto oficial por três dias - precisam
ser absorvidas para que seja possível fazer,
com justiça, a apuração das responsabilidades.
Mas pelo que se leu nos jornais, tudo leva a crer que,
mais uma vez, negligência, a imprudência
e a irresponsabilidade de um mau motorista profissional
foram a as causas principais.
Bagé tem agora o direito de chorar seus mortos.
As autoridades de segurança e o judiciário,
o dever de agir com celeridade e isenção.
Ao Programa PARE do Ministério dos Transportes
cabe, mais uma vez, constatar o enorme risco e condenar
a prática, infelizmente ainda muito presente,
da mistura álcool e direção.
Acidentes provocados por condutores alcoolizados é
presença freqüente e marcante em qualquer
estatística de trânsito. Também
é a principal causa da morte prematura de jovens
brasileiros na faixa etária dos 18 aos 35 anos.
Só no Rio Grande do Sul, segundo dados das autoridades
locais, mais de 30% das mortes registradas foram comprovadamente
causadas pelo consumo irresponsável de bebidas
alcoólicas.
São constatações tristes que certamente
induziram os legisladores do novo código a classificar
a embriaguez ao volante como um crime de trânsito,
com pena de detenção de até três
anos, além da multa gravíssima e da suspensão
do direito de dirigir. Isso tudo, independente do infrator
ter, ou não, causado acidentes com vítimas.
No caso em questão, o acidente de Bagé,
o condutor do caminhão responsável - que
não passou no teste do bafômetro - ainda
vai responder criminalmente pelo homicídio culposo
das 14 vítimas fatais e pela lesão corporal
em outras 8 pessoas que, hospitalizadas, conseguiram
sobreviver à violência do impacto.
O Programa de Redução de Acidentes no
Trânsito do Ministério dos Transportes,
desde o início do ano 2000, tem insistentemente
trabalhado para alertar toda a sociedade sobre essa
perigosa mistura: álcool e direção.
Durante os dois últimos carnavais o PARE esteve
presente com sua campanha nas principais capitais brasileiras
onde os festejos atraíram turistas e foliões,
distribuindo material informativo e sugerindo o transporte
público como o mais seguro no período.
Nas férias de verão, principalmente nas
regiões de intenso fluxo turístico internacional,
coordenou uma bem articulada operação
das polícias estaduais e rodoviária federal
numa gigantesca ação educativa e preventiva
onde o grande vilão era o motorista alcoolizado.
Por ironia do destino - como bem mostrou as imagens
levadas ao ar pelo noticiário das TVs - a poucos
metros do local exato do acidente há uma placa
de nossa campanha onde se lê. Se beber, não
dirija!
Mais recentemente o Programa PARE lançou uma
simpática campanha denominada AMIGO DA VEZ, dirigida
principalmente aos jovens motorizados, que de forma
criativa procura estimular a identificação
no grupo de pessoas que saem para se divertir e beber
aquele AMIGO que, abstendo-se do consumo de bebidas
alcoólicas, passa a se o responsável pelo
transporte seguro de todos os demais.
Já é hora de todos aprendermos definitivamente
o real significado da palavra acidente e aplicarmos
esse novo conhecimento no resgate de um trânsito
mais harmônico, civilizado e menos traumático.
Acidente é, na realidade, um fato fortuito e
imprevisível que pode ocasionar danos físicos
e materiais. As conseqüências de quem dirige
alcoolizado, em excesso de velocidade e desrespeitando
as mais elementares normas de circulação
são por demais conhecidas e facilmente previsíveis
e, por isso, jamais devem ser classificadas como meros
acidentes.
Por isso, aceite nosso conselho: Se você vai beber,
por favor não dirija!
Fernando Pedrosa
Jornalista e Publicitário. Especialista
em Prevenção no Trânsito.
Ex- Coordenador do Programa PARE do Ministério
dos Transportes
Membro da Câmara Temática de Educação
e Cidadania do CONTRAN 2002/2006
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