Estradas Paulistas

Aderlei de Souza


"Sete vidas" da impunidade

Muitos de nós conhecemos - ou pelo menos já ouvimos falar - das "sete vidas" que os gatos têm. Lendas à parte, o fato é que freqüentemente nos pegamos em brincadeiras que remetem à imortalidade. Infelizmente, a realidade é outra. E a morte existe. Basta focarmos nossos olhares para o impiedoso trânsito das ruas, avenidas e estradas de nosso País. Ele é cruel e não perdoa. Mas até que ponto o trânsito em si é responsável diretamente pelas mortes? Muito pouco. O que agrava a situação das constantes mortes registradas diariamente no Brasil é a falta de punição para os responsáveis pelos acidentes.

A banalização das mortes ocorridas no trânsito é tão real que até a mídia deixou de dar a devida cobertura sobre o assunto. A imprensa se limita a um simples registro. Enquanto que um acidente com um avião "Teco-Teco", muitas vezes com uma ou duas mortes, ganha as manchetes dos principais telejornais e sites. Sabe-se o trânsito brasileiro é um dos mais violentos do mundo. O que acontece que as autoridades não fazem nada para reverter tal situação? A justiça é lenta e impune. Na semana passada, numa estrada marginal na cidade de Jundiaí, interior de São Paulo, um motorista de um Tempra, em alta velocidade, atropelou sete pessoas no acostamento, que voltavam de uma festa, matando quatro no local (jovens com idades entre 16 e 22 anos) e ferindo gravemente outros três. O motorista fugiu sem prestar socorro às vítimas e ficou foragido.

Lamentavelmente, o resultado desse acidente será igual ao de milhares que se tem notícia. Ou seja, as brechas nas leis permitirão que o acusado responda ao crime em liberdade. Uma verdadeira impunidade. O que será preciso fazer para que os governos no âmbito municipal, estadual e federal cumpram com seus papéis enquanto autoridades constituídas pela legislação? É preciso que o Governo Federal dê o exemplo por meio de ações eficazes e simples, como campanhas e fiscalização rigorosa. Sempre disse ao então secretário de Estado dos Transportes, Michael Paul Zeitlin - com o qual trabalhei por vários anos - que o policiamento rodoviário deveria ser mais rigoroso, pontual e menos condescendente para evitar tantas tragédias. Na ocasião de sua administração, muitas campanhas foram desenvolvidas com o propósito de reduzir o número de mortes nas estradas paulistas. O próprio secretário se empenhou para atingir os objetivos. E conseguiu. Só que ainda era pouco frente ao que se tinha e, ainda tem: muitas mortes.

Sugiro que o presidente Lula pense na questão e comece a agir colocando uma pessoa pasta dos Transportes que tenha comprometimento com a questão. É preciso mais atitude e vontade política. Sem esses ingredientes não há solução. Atenção Congresso Nacional: é preciso, também, urgentemente, pôr um basta nas "sete vidas" da impunidade. Nós não devemos aceitar essas atrocidades sendo registradas no trânsito como "mais um" acidente.


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