              |
|
RECALL - RECALL - RECALL - RECALL
|
|
Veículos
com defeito de fábrica podem estar
matando muitas pessoas
|
|
Na
tarde do dia 20 de setembro de 1997, o taxista João Sepulveda
Gonçalves no seu Tempra, voltava para casa, pelo mesmo roteiro
que fazia diariamente, em São Paulo. No trajeto, inexplicavelmente,
perdeu o controle do carro e chocou-se com um poste, vindo
a falecer logo depois no Hospital das Clínicas em São
Paulo. No dia 25 de setembro, apenas cinco dias após seu falecimento,
chegou, na residência de João Sepulveda Gonçalves,
carta da Fiat, nos seguintes termos:
A Fiat Automóveis S/A convida você, proprietário
do veículo supra mencionado, a comparecer a sua Rede Assistencial,
por ter verificado, em alguns veículos de igual modelo de sua
propriedade, que as rodas de liga leve submetidas a testes em condições
extremas de uso, apresentaram evidências de possíveis fissuras
e conseqüente ruptura.
Ao
receber a carta, Edna Gonçalves, sua esposa, ficou chocada e
ainda mais segura de sua conclusão sobre o acidente. Eu
tinha certeza de que o problema era com o carro. Meu marido era muito
cuidadoso, fazia todas as revisões, mandava checar qualquer barulho
estranho. E a roda do carro tinha uma fissura. Edna entrou na
justiça, e devido à falta de recursos, está vivendo
com as três filhas no interior de Minas Gerais. Preciso
da ajuda dos meus parentes para sobreviver.
No dia 08 de junho deste ano, ligamos para o 0800 991000, da Fiat e
perguntamos sobre recall de Tempra. Eduardo Ferreira, que atendeu a
ligação, informou, inicialmente, que não havia
recall de Tempra. Insistimos de que tinhamos uma carta da Fiat falando
sobre problemas na roda de liga leve. Depois de alguns segundos ele
informou, que realmente tinha registro do problema, mas não era
recall, apenas uma adequação e que o proprietário,
não tinha levado o carro para checagem das rodas. Nem poderia,
quando a carta chegou, João Sepulveda Gonçalves já
estava morto há cinco dias e uma das rodas do seu carro com fissura.
Outro
acidente, ocorrido em Minas Gerais, com um ex-funcionário da
GM, matou duas crianças. Os peritos do Instituo de Criminalística,
no seu laudo, confirmam que a causa do acidente foi defeito de fabricação.
O veículo, um Corsa Wind, 1.0, tinha 9.000 km, foi encontrado
com a terceira marcha engatada. Os próprios peritos afimam que
o veículo estava em baixa velocidade. Segundo o advogado da vítima,
Lauro Malheiros Neto, o laudo dos peritos arquivou o processo contra
o pai das crianças que poderia ser processado por homicídio
culposo. Na opinião de Malheiros, com o novo código do
consumidor, o brasileiro está tendo condições de
enfrentar as grandes empresas. Antes a relação era
desigual, afirmou Malheiros.
Cada dia mais montadoras e importadores estão divulgando, através
do chamado recall (convocação dos proprietários),
que determinados veículos de uma série podem apresentar
defeitos graves, que comprometam a segurança. O proprietário
deve levar seu veículo à concessionária. O problema
atinge todos os tipos de veículos, dos modelos de luxo aos populares.
São problemas no sistema de freio, direção, air-bag
e outros. O objetivo das empresas ao divulgar o recall é advertir
o consumidor e também precaver-se de eventuais ações
judiciais. Nos EUA, por exemplo, a GM foi condenada por um juri da Califórnia
a pagar indenização de US$ 4,9 bilhões para seis
pessoas da mesma família que ficaram queimadas devido a um defeito
de fabricação do veículo.
A FORD americana também sofreu condenação semelhante.
No Brasil a FIAT perdeu uma batalha, para a Associação
das Vítimas do TIPO. Alguns modelos pegavam fogo sozinhos . Foi
criada a Associação dos Consumidores de Automóveis
e Vítimas de Incêndio do Tipo. Inicialmente eram
16 pessoas, agora são quase 50, afirma Marcello Capparelli
Daquer, um dos advogados da causa.
Nos EUA existe o recall compulsório, em que o governo obriga
as empresas a convocarem os proprietários de veículos,
e o espontâneo. Enquanto, nos EUA, o governo investiga os possíveis
defeitos de fabricação e obriga as empresas a fazerem
recall, além do que espontaneamente elas já fazem, no
Brasil, isso depende da iniciativa das empresas. Segundo Ventura Raphael
Martello, um dos mais famosos peritos de acidentes de trânsito
no Brasil, querem que o criminoso aponte seu próprio crime.
Martello enviou estudo ao Procon sobre Air Bags e sobre a criação
de um órgão governamental para fiscalizar as empresas.
Haveria um formulário, em que seriam preenchidas as reclamações
dos consumidores, de forma que o órgão tivesse condições
de levantar os principais problemas. As montadoras seriam obrigadas
a informar aos Institutos de Criminalística e Polícia
Técnicas, os recall realizados. esclarece Martello. Atualmente,
esses órgãos não são informados oficialmente
e no momento da perícia, o perito desconhece o recall, o que
pode comprometer o trabalho.
Para Raphael Martello, as estatísticas de acidentes de trânsito
não são confiáveis e os acidentes que ocorrem por
defeito mecânico são em maior número do que o relatado.
Isto significa que o brasileiro pode estar sendo acusado de negligente
na manutenção do veículo, mas muitas vezes a responsabilidade
é do fabricante do produto, da montadora ou concessionária.
As montadoras e importadoras são obrigadas a publicar em órgãos
de grande circulação, quando realizam o recall,
que agora começa a ser traduzido como convocação.
Apesar de gastarem fortunas para isso, em jornais, rádios, televisões,
elas não costumam divulgar em seus sites na Internet. Nestes,
o seu custo é zero. No site da GM, www.gmcenter.com.br, ao pesquisar,
em seu sistema de busca as palavras recall e convocação,
aparece a informação de que não foi encontrado,
apesar de estarem em curso vários recalls da montadora.

Para
defender o interesse dos consumidores, está em formação
a ANVEMCA (Associação Nacional das Vítimas de Montadoras
e Concessionárias Automobilísticas), a iniciativa é
de uma espécie de Dom Quixote, Jaílton de Jesus Silva,
que sofreu quatro acidentes com o mesmo veículo e desde a revisão
de 2.500 km apontava os problemas, mas não conseguia solução.
Hoje, Jaílton reúne poderosa documentação
sobre boletins técnicos das montadoras, revelando defeitos de
toda ordem, mas que não chegam ao conhecimento do público.
Muitos defeitos comunicados pela montadora às concessionárias
depois transformam-se em recall. A terminologia usada pela GM, por exemplo,
é campanha. Na medida em que seu trabalho começou a ser
conhecido, Jaílton de Jesus, passou a auxiliar outros proprietários
de veículos a resolverem seus problemas. Muita gente também
entra em contato para ajudar. São pessoas de montadoras, da indústria
de auto-peças, que dão mais informações,
mas que não querem aparecer, explica o ex-comerciante,
que hoje vive das suas economias e assumiu a defesa do consumidor como
uma bandeira. Estou criando a associação, mas quero
gente muito séria à frente dela. Tenho certeza de que
se eu morrer outras pessoas vão continuar essa luta. O problema
é que as pessoas não sabem como agir. Não adianta
colocar fogo no carro ou vestir-se de palhaço como já
ocorreu, isso até prejudica os demais, pois dá a impressão
de que nada será conseguido. É preciso saber enfrentar
as montadoras com argumentos técnicos.
As montadoras alegam, sempre que fazem um recall, desconhecer qualquer
caso de acidentes com vítimas graves ou fatais em virtude de
defeitos de fabricação. Entretanto, há documentos
das próprias montadoras que comprovam, inclusive, a venda de
veículos sem que o defeito comunicado em boletim técnico
tenha sido reparado.
Quando ocorre um recall, a montadora ou importadora, informa que é
grátis, mas na prática o consumidor deve levar o veículo
até o local e aguardar a solução do serviço.
Quando na sua cidade não há concessionária da marca,
ele é obrigado a viajar, sabendo que pode estar correndo risco
de vida, e ainda pagar pela viagem, dia de trabalho perdido e outras
despesas. Estranhamente, ainda não é veiculado na imprensa
recall de caminhões e ônibus. Será que esses veículos
não apresentam defeito de fábrica?
O brasileiro está descobrindo seus direitos e muitas pessoas
estão procurando a justiça para acionar as empresas. É
preciso que estejam bem documentadas, pois indícios não
significam responsabilidade real pelo acidente. Mas que a relação
dos consumidores brasileiros com as montadoras está mudando,
isto não há mais dúvida.
|
Fique
Atento
Melhor prevenir do que se enroscar. As dicas abaixo podem ser úteis
em caso de acidente.
- Quando
efetuar reparos no veículo, principalmente conserto de freios,
suspensão e direção, exija nota fiscal discriminando
os serviços executados.
- Procure fazer seguro completo do automóvel. Se não
tiver condições providencie ao menos um Seguro de
Responsabilidade Civil Facultativa - seguro contra terceiros, pelo
valor mais elevado possível, pois dos itens a serem segurados
é o mais barato e o que pode ajudá-lo no caso de indenizar
alguém.
- Mantenha em ordem a documentação do veículo
e a sua, especialmente a carteira de habilitação.
Fique atento para a validade do exame médico.
- Verifique qual unidade policial de sua cidade é encarregada
de dar atendimento em caso de acidente. Anote endereço e
telefone e mantenha-os no porta-luvas, a fim de ter acesso rápido
em caso de emergência.
- Busque referências de advogados especializados em acidentes
de trânsito. Anote endereço e telefone e guarde.
- Todo e qualquer acidente ocorrido com o veículo deve ser
documentado. Fotografe e guarde comprovante de oficina com discriminação
de peças substituidas e serviços realizados.
- Se comprar um carro usado, procure saber se houve algum acidente
anterior e peça documentação que relate o fato.
- Se verificar vestígios de acidente e a pessoa não
souber dizer como, quando e onde aconteceu, exija um documento afirmando
que na época da transação aquele vestígio
já existia.
|
Serviço
ANVEMCA - (12) 427 5097
anvemca@yahoo.com.br
AVITIPO (21) 240 0347
avitipo@rio.com.br
OUTRAS INFORMAÇÕES:
(21) 224 7802 OU
atendimento@estradas.com.br
Editorial
A BUSCA DA VERDADE
A
RDE Revista das Estradas está novamente publicando
matéria sobre os Recall. O assunto é extremamente
delicado e até assustador. Há indícios sérios
de que as empresas montadoras e importadoras omitem informações
dos consumidores, sobre assuntos que envolvem a segurança
do usuário.
Pessoas podem estar morrendo nas estradas e cidades , vítimas
de defeitos de fabricação de veículos, e passando
até por responsáveis pelos acidentes.
Desde que lançamos o SOS ESTRADAS, Programa de Segurança
nas Estradas, estamos empenhados na redução dos acidentes.
Não pretendemos colocar as montadoras, importadoras ou indústria
de auto-peças como vilãs do processo, apenas chamar
a atenção para o problema e torcer para que no Brasil
os consumidores sejam tratados com o mesmo respeito que são
nos países de origem dessas empresas.
|

|