Recall
- Consumidor merece respeito
O
cidadão brasileiro economiza um dinheirinho, junta
com o 13º salário e compra, com muito sacrifício,
um carro zero - talvez o primeiro de sua vida. Pouco tempo
depois, vem o anúncio: ele deve comparecer a uma
concessionária autorizada da marca de seu veículo
para a verificação e possível troca
das pinças dos freios. Portanto, um componente de
segurança, coisa séria.
Tudo bem que as montadoras e o próprio fabricante
da peça admitiram erros, e assumiram o tal recall,
uma palavra estrangeira e sofisticada que significa: "nós
erramos e vamos consertar".
No entanto, os mais de 70 mil donos de veículos que
se encaixam neste caso estão se sentindo lesados.
Afinal, terão que agendar o serviço, perder
tempo, sem falar na insegurança de rodar com o carro
até que ele seja reparado. E olha que se trata de
um carro novinho. E quem ainda pretende adquirir um modelo
zero nos próximos dias deve ficar atento, pois muitos
dos componentes com o mesmo problema estão em veículos
que ainda se encontram nas revendas e estão impedidos
de saírem das lojas, sob pena de multa e processos.
Segundo os órgãos de proteção
aos consumidores, as montadoras continuam responsáveis
até que 100% dos veículos sejam verificados
e as falhas sanadas. Aos fabricantes, não basta apenas
avisar que há o problema, dizem os Procons e o Ministério
da Justiça. Eles devem ser obrigados a caçar
cada um dos consumidores para comparecerem às oficinas,
exatamente como fazem quando querem anunciar uma liquidação.
As montadoras precisam, urgentemente, também saber
escolher melhor seus fornecedores de autopeças. Essa
Continental Teves já sabia do problema há
mais tempo e só agora, num estalo (ou devaneio) decidiu
avisar que seus sistemas de freios poderiam apresentar defeito.
É muita irresponsabilidade, não?
Não existem estatísticas, mas quantas pessoas
podem ter morrido neste Carnaval nas rodovias, porque ficaram
sem freios? Os fiscalizadores do trânsito garantem
que a maioria dos acidentes é causada por falha humana,
mas há quem confirme que as falhas mecânicas
participam com uma boa fatia. A Associação
Nacional de Consumidores e Vítimas das Empresas Montadoras
e Concessionárias Automobilísticas (Anvemca),
na estrada há sete anos, calcula que das 90.100 mortes
no trânsito registradas no ano passado, de 20% a 25%
foram causadas por problemas na máquina. Um número
absurdo.
Autorizadas
sugerem o agendamento do serviço
As
montadoras envolvidas no recall para a verificação
e possível troca da pinça de freios fornecidos
pela Continental do Brasil produtos Automotivos Ltda. têm
datas diferentes para a convocação dos proprietários
dos veículos. As concessionárias da Fiat,
por exemplo, já aceitam agendamento de serviço
desde última quarta-feira, enquanto as da General
Motors e Ford, desde ontem. No caso da Volkswagen, as oficinas
autorizadas estarão prontas somente a partir da próxima
segunda-feira.
O motivo da "discórdia" é um conjunto
de cavalete/pinças dos freios a disco de automóveis
das quatro marcas, produzidos em janeiro até o início
de fevereiro. A Continental constatou que em algumas dessas
peças o processo de cromagem dos pistões pode
levar à formação de bolhas de gás
e contaminar os circuitos hidráulicos dos freios.
Existe a possibilidade de que, em alguns casos, isso possa
afetar a eficiência do freio e aumentar o espaço
necessário para parar ou reduzir a sua velocidade.
A Volkswagen, por exemplo, produziu 37 mil veículos
no período de 9 de janeiro a 8 de fevereiro. Desse
total, 26 mil unidades não estão afetadas
por utilizarem peças de outro fornecedor. Considerando
os carros nos pátios da montadora e dos concessionários,
cerca de 10% desse total estão nas mãos dos
consumidores, explica a empresa. Os carros envolvidos são
Gol, Parati, Saveiro, Santa e Kombi.
O recall da General Motors, por sua vez, inclui 23.854 Celta,
Corsa, Astra, Vectra e Zafira, enquanto o da Fiat atinge
10 mil unidades de nove modelos: Fiorino, Uno, Palio Young,
Doblò Furgão, Doblò Panorama, Palio
(o de novo design), Strada, Weekend e Siena.
No caso da Ford, devem procurar as concessionárias
da marca apenas os proprietários de Ka, Fiesta e
Courier, produzidos entre os dias 1º de janeiro e 8
de fevereiro. A empresa informou que 6.700 unidades se encaixam
nestas condições, mas acredita que cerca de
4 mil estariam nas garagens dos consumidores.
Todas as montadoras garantem total apoio aos donos de automóveis.
No entanto, solicitam que se faça o agendamento,
para evitar filas. "A verificação e a
possível troca não demora mais do que duas
horas de serviço, mas para o conforto dos clientes,
aconselhamos ligar antes e marcar horário",
explica Túlio Eduardo, líder da recepção
da oficina da concessionária Pisa Ford.
Bolhas
prejudicam funcionamento
O
funcionamento dos freios de um carro depende de um óleo
específico. Preso dentro de mangueiras, esse fluido
transmite até as rodas o impulso que o motorista
dá no pedal. Com a presença de bolhas no sistema,
como as que podem ser liberadas pelas pinças defeituosas,
a elasticidade do fluido muda, afetando a transmissão
do impulso.
Dessa maneira, o carro passa a frear menos e, em casos extremos
- como numa descida de serra - pode não parar. Daí
o risco de acidentes com conseqüências desastrosas.
O funcionamento do sistema de freios é semelhante
ao de uma seringa. O pedal de freio aciona um êmbolo
que empurra o fluido, preso dentro de mangueiras ligadas
às rodas. Na outra ponta das mangueiras, êmbolos
menores cedem à pressão do fluido e comprimem
as pastilhas de freio contra discos de metal, fazendo o
carro parar.
Veículos com fluido vencido estão sujeitos
a problemas semelhantes aos relatados pelas montadoras.
Em uso intenso, o fluido gasto ferve e cria bolhas de ar
e o sistema torna-se ineficiente.
São
três fornecedores no país
Apesar
dos problemas terem acontecido com os componentes produzidos
pela Continental do Brasil Produtos Automotivos Ltda, do
grupo Continental Teves, a empresa não é a
única fornecedora de freios para a indústria
automobilística. No caso deste recall, todos os modelos
que podem apresentar problemas foram "sorteados"
com o defeituoso lote da Continental que assumiu a culpa.
Outras duas grandes empresas do ramo desenvolvem e vendem
sistemas de freios para a indústria automotiva e
mercado de reposição, seja nas lojas das concessionárias
ou nas do mercado paralelo. São elas a Bosch e a
TRW, que comprou a Freios Carga. Esta última fornece
freios e seus acessórios para todas as montadoras,
com exceção da Fiat.
Justiça
de olho
A
"culpa" do defeito dos freios está sendo
dividida entre as montadoras e a Continental, mas o Ministério
da Justiça e os órgãos do consumidor
não querem saber. Esperam apenas que as empresas
cumpram as novas determinações em casos de
recall. Desde agosto do ano passado, uma Portaria determinou
que o fabricante deve convocar os consumidores por meio
de comunicados na TV, jornais e rádios, com informações
sobre o defeito encontrado, início e término
do agendamento para correção ou substituição
de peças.
Mesmo que tenha perdido o prazo de convocação,
o consumidor tem direito ao serviço. O descumprimento
das informações pelas empresas é sujeito
a punição e multas de até R$ 3,1 milhões.
Nos
EUA, um novo caso
Nos
Estados Unidos, a Ford anunciou um recall de cerca de 700
mil carros. Uma deficiência no sistema de resfriamento
causava, em situações extremas, o superaquecimento
do motor. Em oito casos, os modelos chegaram a pegar fogo,
mas sem deixar feridos.
A convocação atinge o esportivo Mustang e
os sedans Taurus e Mercury Sable, mas o problema só
foi verificado em modelos fabricados em 1995. Segundo a
montadora, estão sendo chamados para a revisão
641 mil veículos vendidos nos Estados Unidos e outros
43 mil comercializados no Canadá e no México.
Peças do sistema de ventilação foram
instaladas muito próximas umas das outras, o que
dificultava o resfriamento
Em outro caso de recall, a agência norte-americana
para a segurança viária (NHTSA, sigla em inglês
de National Highway Traffic Safety Administration) anunciou
que vai negar a abertura de uma investigação
sobre a qualidade do Explorer, como havia pedido o fabricante
de pneus norte-americano Firestone, filial da japonesa Bridgestone.
Esta decisão constitui uma vitória para a
Ford, que sempre afirmou que os diversos acidentes fatais
que envolveram os veículos 4x4 estiveram ligados
a pneus defeituosos da Firestone, que pediu em junho do
ano passado, à NHTSA, a abrir uma investigação
sobre os modelos Explorer.
O fabricante de pneus afirmava que esses veículos
estavam "mal projetados" e que não eram
resistentes. "As estatísticas não sustentam
as afirmações da Firestone, porque não
há mais riscos de acidentes com os utilitários
Explorer", afirmou a NHTSA, em um comunicado oficial.
Continental
será investigada
O
Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor
(DPDC) do Ministério da Justiça notificou
a empresa Continental do Brasil Produtos Automotivos Ltda
para saber mais informações sobre as peças
defeituosas fornecidas para as montadoras GM, Fiat, Ford
e Volkswagen. O Procon de São Paulo também
vai solicitar informações às montadoras.
Segundo a diretora-adjunta do órgão, Patrícia
Barros, a Continental terá que informar quando o
problema nas peças foi detectado, quanto tempo ela
levou para informar as montadoras e quais os testes feitos
para que o defeito fosse detectado. A empresa tem dez dias
para dar um resposta.
Patrícia Barros também informou que o departamento
vai acompanhar de perto a realização dos recalls
das montadoras e deve receber, em dois meses, um relatório
de cada empresa com o número de trocas já
feitas e outros detalhes sobre os recalls.
O universo potencial de veículos que terão
de passar por um recall do sistema de freios chega a 70
mil unidades, segundo estimativa feita pela própria
Continental e supera o número de 50 mil carros informado
inicialmente pelas montadoras.
A empresa garante que o defeito foi detectado ainda na linha
de produção da fábrica, que fica em
Várzea Paulista (SP), e que todo o lote de peças
sob suspeita já está sendo recolhido do mercado.
"Avisamos às montadoras e estamos fazendo um
rastreamento das peças. A maioria dos carros ainda
deve estar no pátio das montadoras", garantiu
o diretor comercial da Continental, Paulo Segalla.
Ele nega a hipótese de o problema ter sido detectado
depois da ocorrência de algum acidente.
Freios
da Continental são problemáticos há
quatro anos
Problemas
com sistemas de freios da Continental Teves existem desde
1997 e a empresa já chegou a fazer, recentemente,
um "recall branco" (conserto de defeitos sem comunicar
o consumidor). O alerta é do presidente da Associação
Nacional das Vítimas de Montadoras e Concessionárias
Automobilísticas (Anvemca), Jaílton de Jesus
Silva, que garantiu ter encaminhado ao Governo federal um
dossiê contendo denúncias de que as montadoras
ainda escondem da sociedade defeitos detectados em veículos,
colocando em risco a segurança dos motoristas.
Ele afirma ter reunido documentos que comprovam a existência
de 170 casos do chamado recall branco. "'Tenho documentos
que consegui com peritos, promotores e engenheiros das indústrias.
O principal defeito no recall branco atinge o freio dos
veículos", ressalta.
Silva garante conhecer, de perto, o processo de fabricação
dos freios - motivo do último recall, envolvendo
carros da Fiat, General Motors, Volkswagen e Ford -, quando
obteve informações importantes sobre a falta
de controle de qualidade da Continental em sua linha de
produção.
Depois de sofrer na pele, Jaílton passou a se informar
mais sobre defeitos nos automóveis e acabou virando
um expert no assunto. Ele explica que os consumidores convivem
com problemas em seus carros há muitos anos, mas
que só após a mobilização de
todos os brasileiros contra empresas negligentes haverá
uma solução.
Criada há sete anos, mas registrada em novembro de
2001 como uma associação legal, a Anvemca
tem dois objetivos principais: fazer valer os direitos dos
consumidores e colaborar para a redução do
número de vítimas fatais do trânsito.
De acordo com dados da associação, em 2001,
mais de 90 mil pessoas morreram nas estradas, sendo que
entre 20% a 25% a causa foi falha do veículo. "O
projeto Pare, tão divulgado pelo Governo, só
fala em motoristas culpados, mas se esquece que a indústria
automotiva também colabora para esses números,
na medida em que são negligentes na qualidade de
seus produtos", acrescenta o vice-presidente da Anvemca,
Sandro de Oliveira.
O trabalho da entidade, segundo Jaílton, não
é apenas criticar as montadoras e sim conscientizá-las
de que se pode chegar a uma solução que agrade
a todos. "Enquanto nos Estados Unidos e na Europa,
a cada lote de 1 milhão de veículos, de uma
a duas pessoas morrem, no Brasil este número sobe
para 25."
Para
falar com a Anvemca, ligue (12) 427-5097.
Página na Internet: www.anvemca.hpg.com.br. E-mail:
sos.anvemca@uol.com.br
Assunto
tratado como crime
Nos
Estados Unidos, o Governo, através de organismos
especializados em segurança veicular - como o NHTSA
-, investiga os possíveis defeitos de fabricação
e obriga as empresas a fazerem recall. Além disso,
as próprias montadoras são mais atentas quanto
ao assunto, pois têm medo de ações judiciais.
Na opinião de Ventura Raphael Martello, um dos mais
famosos peritos de acidentes de trânsito no Brasil,
nos casos de recall, o criminoso deve ser obrigado a apontar
seu próprio crime. "As montadoras deveriam informar
aos Institutos de Criminalística e Polícia
Técnica, os recalls feitos", esclarece Martello.
Atualmente, esses órgãos não são
informados oficialmente e no momento da perícia,
o perito desconhece o recall, o que pode comprometer o trabalho.
Para Martello, as estatísticas de acidentes de trânsito
no Brasil não são confiáveis e os acidentes
que ocorrem por defeito mecânico são em maior
número do que o relatado. "Isto significa que
o brasileiro pode estar sendo acusado de negligente na manutenção
do veículo, mas muitas vezes a responsabilidade é
do fabricante do produto, da montadora ou concessionária."
Fonte: Hoje em Dia