Pelos
direitos do cidadão - Jaílton de Jesus Silva
Enio
Greco
O
Brasil comemora os 10 anos do Código de Defesa do
Consumidor, mas para algumas pessoas há muito o que
ser feito para garantir os direitos dos cidadãos.
É o que pensa Jaílton de Jesus Silva, ex-comerciante
e representante da Associação Nacional das
Vítimas das Montadoras e Concessionárias Automobilísticas
(Anvemca), com sede em Caraguatatuba/SP. Ele concluiu que
muitos acidentes automobilísticos no Brasil são
causados por falhas mecânicas ou erros de projeto,
que, na maioria das vezes, não são revelados.
Em entrevista ao caderno Veículos, Jaílton
revela que apenas 2% dos defeitos apontados nos carros brasileiros
são corrigidos por recalls, quando a
montadora convoca proprietários de veículos
para reparos ou substituição gratuita de componentes
defeituosos.
ESTADO
DE MINAS: O que o motivou a criar uma entidade
como a Anvemca?
Jaílton de Jesus: Há algum tempo, fui vítima
de quatro acidentes automobilísticos graves e Deus
me deu a oportunidade de escapar com vida. Em um dos casos
descobri que o acidente foi causado por um defeito no freio
do carro, um modelo da General Motors. A partir de 1997,
comecei a pesquisar o assunto e apurei que vários
acidentes em nossas estradas eram causados por defeitos
nos carros. Assim surgiu a Anvemca, uma entidade que tem
como proposta lutar pelos direitos dos consumidores de veículos
no Brasil.
EM:
Em suas pesquisas, quais foram os fatos mais graves constatados
no que diz respeito aos defeitos de fabricação?
JJ: No Brasil morrem cerca de 42 mil pessoas por ano em
acidentes automobilísticos e fiquei impressionado
ao constatar que 25% desses desastres são provocados
por falhas nos automóveis, defeitos de fabricação,
vícios ocultos, falhas de projeto e mão-de-obra
não qualificada na linha de montagem ou nas concessionárias.
Muitos inocentes morreram e outros tantos foram indiciados
criminalmente sem saber que os acidentes nos quais se envolveram
foram provocados por falhas nos veículos. Se tais
problemas forem solucionados, vamos conseguir reduzir o
número de acidentes de 10% a 15%, e o número
de mortes de 15% a 25%.
EM:
Quais as formas que o cidadão tem para se defender
de situações como essa?
JJ: Em casos de acidentes automobilísticos, principalmente
com vítimas, é preciso que se faça
uma perícia minuciosa, para se detectar se o acidente
foi causado por defeito no carro. No Brasil, os peritos
não têm como identificar se o veículo
foi submetido a um recall para corrigir um possível
defeito de fabricação. O consumidor tem que
ficar atento.
EM:
Na sua opinião, esses fatos ocorrem no Brasil por
desinformação ou falta de interesse dos consumidores?
JJ: Não se trata de ignorância do consumidor
brasileiro, mas a maioria não sabe que faz uso de
veículos com defeitos. Para se ter uma idéia,
95% da sociedade brasileira não tem conhecimento
do que é um recall. Mas o primeiro erro está
na utilização da palavra em inglês.
Por que não dizer chamada de volta?
EM:
Você preparou um dossiê com vários documentos
e informações que comprovam a prática
do chamado recall branco. O que você revela
nessa documentação?
JJ: O chamado recall branco é uma prática
comum no Brasil. Ele é definido da seguinte forma:
a montadora detecta um defeito de fabricação
em determinado modelo, comunica o fato à sua rede
de concessionárias, mas os proprietários dos
veículos não são informados. O Código
de Defesa do Consumidor é claro: todo defeito, que
traga prejuízo ou não à vida e segurança
do consumidor tem que ser comunicado. Defeitos e falhas
em automóveis são comuns em todo o mundo,
mas os mesmos vêm sendo ocultados há anos pelas
montadoras no Brasil. Aqui, esses defeitos são considerados
como segredo industrial, conforme declarações
de representantes das montadoras. E são inúmeras
as irregularidades que apontam falhas de projeto, defeitos
de concepção na linha de produção,
os chamados vícios ocultos, que não são
aparentes ou de difícil constatação,
e ainda a mão-de-obra não qualificada.
EM:
O volume de recalls realizados pelas montadoras no Brasil
é
muito grande?
JJ: Não, pelo contrário. Enquanto na Europa
e Estados Unidos as montadoras anunciam vários recalls
por semana, por aqui a situação é bem
diferente. Desde 1990, quando se fez valer o direito do
consumidor no Brasil, até os dias de hoje, foram
registrados apenas 25 recalls pelas montadoras de automóveis.
Um volume grande de recalls não denigre a imagem
das empresas, mas elas continuam agindo dessa forma. Eu
apurei que uma montadora detectou num período de
um ano 170 defeitos em seus produtos. Desse total, apenas
2% foi transformado em recall. Se o próprio presidente
da VW, Herbert Demel, disse que o Brasil é
recordista mundial na fabricação de carros
novos com defeito, como se explica esse pequeno número
de recalls?
EM: Quais as diferenças básicas que você
vê entre o consumidor
brasileiro e o europeu?
JJ: O consumidor brasileiro ainda não sabe cobrar
os seus direitos. Pessoas e associações têm
que se unir, pois só assim vamos conseguir alguma
coisa. Nesse ponto, o consumidor brasileiro mostra que é
ignorante.
EM:
Você já levou ao conhecimento da Câmara
dos Deputados, em
Brasília, relatórios sobre tais irregularidades,
e já está com uma outra audiência marcada
para expor outros problemas. O que será relatado
dessa vez?
JJ: Vou apresentar um dossiê com informações
estarrecedoras. Na outra audiência na Câmara
já havia sido sugerida uma CPI para apurar os fatos,
mas até o momento nada foi feito. Agora vamos falar
de problemas como o airbag da Fiat, que apresentam falhas
nos modelos de 1997 a 1999. Temos dados estatísticos
de que eles inflam por motivos banais e com isso podem provocar
acidentes. Vamos mostrar também casos de outras marcas,
que realizam recall na Europa e nos EUA e aqui no Brasil
não.
EM:
É verdade que no Brasil os consumidores preferem
comprar um carro com CD Player e não com airbag?
JJ: Eu também escolheria um CD Player porque não
confio no funcionamento do airbag. Além disso, nossa
malha viária compromete ainda mais o funcionamento
do airbag. O cinto de segurança vale por dez airbags.
EM:
O que falta para o consumidor brasileiro ser respeitado
e poder exigir seus direitos diante das montadoras?
JJ: Tem que haver boa vontade e bom senso por parte das
autoridades e entidades competentes. Os órgãos
de defesa do consumidor normalmente não têm
os mecanismos para agir. Os Procons, por exemplo, não
têm técnicos especializados. A hora é
de união e todo esforço é válido
para que os consumidores possam ter seus direitos resguardados.
O que não é válido é a indústria
da multa. A inspeção veicular também
vai se transformar em outra indústria de arrecadação.
A idéia é válida, mas a forma escolhida
já começa errada, pois os veículos
novos estariam fora da inspeção
--------------------------------------------------------------------------------
*Inspeção veicular será discutida em
julho
27/06/2001 13h18
Agência
AutoData - As discussões sobre o programa de inspeção
veicular serão reabertas em reunião marcada
para julho com o ministro da Justiça, José
Gregori. A informação é do presidente
da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva
(AEA), José Edison Parro. "Neste ano nosso trabalho
está totalmente voltado para a implementação
da inspeção veicular junto ao governo. Estamos
lutando para que o programa seja aprovado até 2002."
Segundo
Parro, a intenção é que o programa
funcione por meio de centros de inspeção,
onde os veículos passarão por vistorias que
confirmariam sua condição de segurança
e nível de emissões. Caso não passe
pelo exame, o veículo deverá ser reparado
para depois realizar novo teste.
"Para
a realização da inspeção será
cobrada uma taxa que, apesar de não estar definida,
ficará em torno de R$ 20,00 a R$ 80,00. Este, inclusive,
é um dos problemas que o governo está estudando
para não afetar a questão social."
Para
o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes
de Veículos Automotores (Anfavea), Célio Batalha,
a inspeção veicular é uma questão
que deve ser tratada tecnicamente e pode trazer uma série
de benefícios para o meio ambiente, segurança
de veículos e tráfego. "Também
esperamos que seja aprovada em breve.
(Cláudia Freiesleben)
Voltar