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MONTADORAS
CONVOCAM MAIS DE 4 MILHÕES DE VEÍCULOS COM
DEFEITO GRAVE NOS ÚLTIMOS 7 ANOS
Mais
de dois milhões de proprietários não
compareceram aos recalls e autoridades estudam possibilidade
de proibir seus veículos de circularem
A
palavra recall, de origem inglesa, que significa chamar
de volta, passou a fazer parte do vocabulário dos
brasileiros nos últimos anos. As montadoras, em
virtude do Código do Consumidor, passaram a revelar
os possíveis defeitos graves dos seus veículos,
que antes ficaram protegidos pelo silêncio desde
os anos 60 até 1990 quando o Código entrou
em vigor. Apenas a Ford e a VW tiveram um caso cada de
recall semelhantes aos que ocorrem atualmente.
Entre janeiro de 2002 e março de 2003 foram realizados
30 recalls, envolvendo 81 modelos diferentes de marcas
como Audi, GM, Fiat, Ford, VW, Audi, BMW, Land Rover,
Nissan, Renault, Peugeot, Mercedes. Os dados preliminares
de um estudo realizado pelo www.estradas.com.br revelam
que mais de 4 milhões de veículos foram
convocados desde 1994 e que aproximadamente 50% dos veículos
não compareceram para checar o item de segurança
que gerou o recall. Isto significa que pelo menos dois
milhões de veículos podem estar circulando
com defeito grave. Na opinião de Rafael Martello,
um dos peritos em acidentes de trânsito mais respeitados
do país, é um caso de incolumidade pública,
que pode estar colocando milhões de motoristas
e pedestres em situação de risco. Roberto
Fonseca, perito do Instituo de Criminalística de
São Paulo compartilha da mesma preocupação
e explica que quem toma ciência de um recall deve
levar o veículo imediatamente para a concessionária
mais próxima e não ficar circulando com
o veículo.
As razões para as pessoas não levarem seus
veículos são muitas. Desde negligência
do proprietário até falta de conhecimento
do recall. Os comunicados das montadoras não deixam
claro para o consumidor dos riscos que ele está
correndo. Nas cartas enviadas aos proprietários
são citados prazos de 180 dias que induzem a pensar
de que não há risco imediato.
O assessor de imprensa da Secretaria de Transportes, Aderlei
de Souza, reconhece que recebeu carta da GM informando
sobre problema na roda do Corsa e demorou mais de 1 ano
para levar na concessionária, isto apesar de rodar
em média 60.000 km/ano. Os comunicados na imprensa
também são vagos e já levaram jornalistas
de renome como Elio Gaspari a escrever artigo ironizando
comunicado da GM , que convocou proprietário de
Astra 99 informando: Esse procedimento é
necessário por existir a possibilidade de, em alguns
veículos, a junta universal desacoplar-se da árvore
de direção, levando à anulação
do controle direcional. A tradução
do ilustre jornalista foi: A diretoria da GM sabe
muito bem que essa conversa de a junta universal
desacoplar-se da árvore significa que um
de seus fregueses pode vir a perder o controle do Astra
que dirige, acoplando-se, a 80 km/h , ao tronco de uma
árvore da calçada.
Apesar
do temor de especialistas em segurança, o Presidente
da Anfavea, José Pinheiro Neto, também vice-presidente
da GM, comparou o recall a seção erramos
dos jornais. Isto apesar de sua empresa ter admitido,
no recall do cinto de segurança do Corsa de que
tinha conhecimento de dois acidentes com morte, em que
o cinto não teria funcionado adequadamente. Seguramente
Pinheiro Neto não pretende colocar nos túmulos
das vítimas a palavra Erramos com a assinatura
General Motors.
Algumas convocações ocorrem em datas que
dificultam aos proprietários tomarem conhecimento
da convocação. Foi o caso do dia 27 de fevereiro,
noite de quinta-feira, véspera de Carnaval, em
que proprietários de Blazer 2003 e S10 foram convocados
pela GM para verificação e eventual troca
do servofreio, esclarecendo: Isto se faz necessário
pois foi detectada uma variação no processo
produtivo do servofreio, do fornecedor Robert Bosch, que
pode causar, em condições extremas, infiltração
de ar e conseqüente perda de eficiência do
sistema de freios do veículo.
Na prática, segundo especialistas em segurança,
como Rafael Martello isto pode significar, em condições
extremas a diferença entre a vida e a morte,
já que o motorista, ao solicitar o freio e perceber
que ele ficou duro, poderá, numa situação
de emergência, demorar mais para frear e conseqüentemente
chocar-se com outro veículo ou obstáculo.
A opinião é compartilhada por Oswaldo Catano,
pesquisador do Instituto de Pesquisas Técnicas
de São Paulo (IPT-SP). Eu mesmo passei por
uma situação dessas quando tentei frear
meu Fiesta e quase bati no poste. Depois verifiquei que
estava havendo um recall para checar o sistema de freio.
CARROS
CONVOCADOS PODERÃO SER PROIBIDOS DE CIRCULAR CASO
NÃO ATENDAM AO RECALL IMEDIATAMENTE
Logo após a convocação da GM, a Ford
convocou proprietários de Ford Ka também
para checar problemas no freio, informando: Nesta
condição, será necessário
um esforço adicional no acionamento do pedal do
freio para garantir a eficiência normal do sistema
de frenagem. A Ford, mais cuidadosa que a GM, solicitava
o pronto atendimento à convocação.
O que revela a preocupação da empresa com
possíveis acidentes. Já a GM, na sua carta
aos proprietários fala em 180 dias de prazo, dando
a entender de que não é um problema urgente.
Entretanto, vários consultores técnicos
das concessionárias GM informaram que os proprietários
não deveriam viajar no Carnaval com o veículo
e deveriam levar o carro imediatamente a concessionárias
mais próxima.O Presidente do Comitê de Veículos
de Passeio da SAE do Brasil (Society of Automotive Engineers)
José Fernando Penteado, que, ao ser perguntado
se viajaria com veículo convocado por recall no
sistema de freio ou direção, respondeu:
De maneira alguma. Todos os consultores técnicos,
peritos, engenheiros, contactados pela Revista das Estradas
comungaram da mesma opinião: não se deve
andar com veículo convocado para recall até
ser checado o problema.
Isto poderá levar as autoridades de trânsito
a proibirem a circulação dos veículos
que não compareceram a recall. O Denatran já
está estudando o assunto. O Diretor do DPDC, Ricardo
Morishita, acha que a idéia é extremamente
interessante e deve ser discutida com a sociedade.
O artigo 64 do Código de Defesa do Consumidor
prevê essa possibilidade e ainda estabelece pena
de privação de liberdade para quem infringir
a lei. Veja o texto:
Art. 64 Deixar de comunicar à autoridade
competente e aos consumidores a nocividade ou periculosidade
de produtos cujo conhecimento seja posterior à
sua colocação no mercado:
Pena Detenção de seis meses a dois
anos e multa.
Parágrafo único. Incorrerá nas mesmas
penas quem deixar de retirar do mercado, imediatamente
quando determinado pela autoridade competente, os produtos
nocivos ou perigosos, na forma deste artigo.
O DPDC não possui estrutura para investigar defeitos
graves, como ocorre nos EUA, que possui um órgão
para esse fim. No Brasil os consumidores dependem que
a montadora comunique o defeito, enquanto em outros países,
além dessa comunicação espontânea,
as autoridades investigam e podem determinar a realização
de recall. Foi o caso dos pneus Firestone da Ford Explorer
que matou dezenas de pessoas. Rafael Martello defende
a criação de um órgão específico
para esse fim que possa, inclusive, colher dados sobre
as reclamações de defeitos em todo país,
e formar um banco de dados que poderá permitir
detectar os possíveis defeitos graves, antes que
causem mortes. Ricardo Morishita não está
convencido de que seja a melhor solução,
mas admite discutir o assunto, já que reconhece
o grande volume de atribuições do órgão,
responsável desde por defeitos em liquidificadores,
biquínis e bicicletas, até automóveis,
computadores e asas-delta.
A proibição da circulação
de veículos convocados talvez seja a única
forma de fazer com que os proprietários levem o
veículo imediatamente à concessionária
e evitará contradições dantescas
como, nas inspeções feitas nos Detrans ou
fiscalização da autoridade policial, proibir
que um veículo circule com o extintor vencido,
mas permitir que ande podendo pegar fogo, com freio sob
suspeita, cinto que pode não funcionar, dentre
outras contradições.
O compositor Chico Science, criador do Mangue Beat, morreu
num acidente de trânsito com um Fiat Uno em que,
segundo a perícia, o cinto de segurança
rompeu a fivela e o artista acabou falecendo com traumatismo
craniano. O caso foi julgado em primeira e segunda instância,
com vitórias da família da vítima.
Outro caso no mesmo estado, com característica
semelhante vitimou um rapaz de 18 anos, João Barbalho
Sobrinho, cuja família também saiu vitoriosa
na Justiça Pernambucana. A Fiat em ambos os processo
nega a falha no cinto, mas a perícia constatou
deficiência do sistema. Os dois processos foram
movidos antes do recall do cinto do Corsa e do Pálio,
que obrigou as montadoras a convocarem mais de 1,6 milhão
de proprietários para checar o cinto de segurança.
Entretanto, não há recall do cinto do Fiat
Uno.
Segundo o promotor Rodrigo Terra, especialista em defesa
do direito do consumidor, o proprietário de veículo
convocado por recall poderá exigir reparo por dano
material e moral caso seja obrigado a levar seu veículo
até a concessionária mais próxima.
Para isso deve se munir de todos os documento possíveis.
Muitos consumidores são obrigados a viajar centenas
de quilômetros para atender a um recall, sendo obrigadas
a viajarem em situação de risco reconhecido
pela própria montadora, perderem dia de trabalho,
tendo despesas de combustível, alimentação
e por vezes até pernoite.
O gerente de Marketing de Produto da Ford, Reinaldo Nascimbeni
também reconheceu que o proprietário de
veículo convocado para recall deve evitar usar
o veículo enquanto não comparecer para o
recall. Mesmo que o problema tenha sido detectado
no México, como é o caso do Ford Ka, não
recomendamos que a pessoa ande nem mais um minuto,afirmou.
Segundo Nascimbeni é freqüente as pessoas
não levarem os veículos para fazer o recall
e reconheceu que caso o Denatran proibisse a circulação
dos veículos poderia ser uma força
legal. O executivo da Ford sugeriu ainda a utilização
do banco de dados do Renavam, que permitiria fazer chegar
aos atuais proprietários a comunicação
do recall, já que fica difícil encontrar
o proprietário atual de carros mais antigos, que
já foram negociados várias vezes.
A reação do consumidor também impressiona.
Carlos Pomari, funcionário de uma multinacional,
ficou chocado quando recebeu a carta da GM convocando
para recall na roda do Corsa. Também ficou decepcionado
com o atendimento do Procon. Reconheceu que viajou entre
São Paulo e Atibaia várias vezes para ir
trabalhar e que ficou tenso, até o dia agendado
para o recall. Para Pomari o certo era a empresa ter fornecido
um carro para ele usar enquanto o dele não tivesse
sido checado e a peça eventualmente trocada.
ISNPEÇÃO
VEICULAR
Outra
medida importante é regulamentar a Inspeção
Veicular, já prevista no Código
de Trânsito, que também poderá
retirar do mercado milhões de veículos
que trafegam sem condições mínimas
de segurança, além de obrigar os
proprietários a manterem os veículos
em condições de segurança.
Roberto Scaringela, especialista na matéria,
explica: Hoje o Detran licencia um veículo
sem saber realmente das suas condições
de segurança e emissão de poluentes.
A inspeção Veicular não foi
capricho do legislador, mas uma necessidade. Scaringela
estima que 85% dos casos podem precisar adequar
algum item e alguns milhões de veículos
poderiam ser proibidos de circular. Mas a Inspeção
Veicular poderia gerar 100 mil postos de trabalho
e receita de R$ 2 bilhões além de
reduzir os acidentes.
Paulo Teixeira, presidente da Abrevis - Associação
Brasileira de Regulação, Vistoria,
Inspeção, Auditoria e Correlatos,
explica que além de vistoriar as condições
do veículo é possível checar
sua procedência, mas não está
muito otimista de que o a Inspeção
Veicular venha a ser regulamentada em breve. Da
mesma forma pensa Eduardo da Boné Inspeções,
sócio da Controlauto, empresa criada para
as Inspeções Veiculares que investiu
mais de US$ 1 milhão na expectativa da
regulamentação que não ocorreu.
Trouxemos equipamentos sofisticados, mas
enquanto a Argentina, por força de acordo
do Mercosul, começou a fazer Inspeção
Veicular, o Brasil, que propôs a idéia
não faz ainda.
Num país que é campeão de
acidentes no trânsito, a regulamentação
da Inspeção Veicular e a proibição
de circulação de veículos
convocados pelas montadoras por possíveis
defeitos graves, podem ser o início de
mudança nas estatísticas de acidentes.Na
opinião de vários especialistas,
somente com medidas rígidas conseguiremos
reduzir o risco que todos corremos no trânsito
e nas estradas.
O
estudo que está sendo finalizado pelo www.estradas.com.br
e RDE - Revista das Estradas, e será lançado
ainda no mês de maio,
servirá de subsídio para que as
autoridades e proprietários de veículos
possam tomar medidas de interesse público
e ao mesmo tempo garantir direitos dos consumidores.
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