PORTARIAS
DA ARTESP NÃO SÃO RESPEITADAS E PASSAGEIROS CORREM
RISCO
A
história é a de sempre. A Agência Reguladora
de Serviços Públicos Delegados de Transporte do
Estado de São Paulo - ARTESP, publica Portarias no Diário
Oficial do Estado (DOE), e não fiscaliza sua aplicação.
Ao menos é o que fica evidente nos casos das Portarias
9, de 12/05/2005, que estabeleceu parada obrigatória para
viagens com mais de 170km e a Portaria 20, de 25/11/2004, que
dispõe sobre medidas e instruções de segurança,
tais como o uso do cinto de segurança, a proibição
de viajar em pé, etc...
Em
ambas, o objetivo principal é o de resguardar a segurança
dos passageiros no transporte rodoviário intermunicipal.
Mas, só fica na intenção porque a prática
é bem outra. No sábado passado (13 de agosto), a
reportagem do www.estradas.com.br foi conferir quatro linhas diferentes
e constatou irregularidades em todas.
Há
30 dias o mesmo repórter fez as viagens Jundiaí
- São Paulo, São Paulo - Santos, Santos Ribeirão
- Preto, Ribeirão Preto - Campinas, Campinas Jundiaí
e constatou a desobediências às portarias 20 e 9,
além de excesso de velocidade.
Desta
vez, partimos de São Paulo para Ribeirão Preto,
no carro 7626, escolhemos o horário das 11h45, único
que faz, no km 150 da Via Anhangüera, parada de cerca de
30 minutos, conforme determina a Portaria 9, que estabeleceu parada
obrigatória para viagens acima de 170km.
O
motorista sabia da presença da reportagem e, mesmo assim,
não se intimidou em andar em velocidade acima do permitido,
bem como em não dar nenhuma instrução de
segurança antes de pegar a estrada, conforme determina
a portaria 20, em vigor há seis meses.. Segundo o condutor
J. França, da Viação Cometa, nenhum motorista
cumpre essas determinações . "Não tenho
tempo para ficar explicando aos passageiros essas coisas. Os fiscais
da empresa ficam em cima da gente por causa do horário",
replicou.
Sumaira,
que preferiu omitir o sobrenome, viajava com seu filho Mateus
de apenas nove meses. "Viajo sempre nessa linha e nunca vi
os motoristas explicarem nada sobre segurança nem informarem
que tem água à disposição dos passageiros",
disse.
Segundo
ainda a mesma passageira, os folhetos explicativos raramente são
vistos nas poltronas e a velocidade dos ônibus, frequentemente
acima do permitido, também é percebido por ela.
"Este motorista só andou mais devagar porque ele sabia
que o senhor era jornalista, senão teríamos chegado
antes em Ribeirão", disse ao repórter.
Apesar
disso em vários trechos os ônibus passavam de 100km/h
onde o limite era de 80km/h e chegam a andar a quase a 120km/h.
O limite máximo na rota percorrida é de 90km/h.
O excesso de velocidade, também é observado nas
demais viagens e transgride normas de segurança e determinação
do Departamento de Estradas de Rodagem - DER, que diz que ônibus
e caminhões devem trafegar, no máximo, a 90 km/h,
na Rodovia dos Bandeirantes, e a 80 km/h, na Via Anhangüera.
Nas
praças de pedágio, o motorista chegava a imprimir
velocidade de 60 km/h, enquanto o limite era de 40km/h. Na passagem
pelas cabines do "Sem Parar", o veículo não
cruzava em menos 50 km/h.
Em
conversa com alguns dos passageiros, a reportagem constatou, que
desconhecem a Portaria 9, que determina parada obrigatória
em viagens com mais de 170km, e que as paradas são muito
importantes por conta do tempo de viagem e condições
dos passageiros. A aposentada Rosa, que se utiliza de uma bengala
para caminhar, também destacou a importância da parada
obrigatória. "Ainda bem que peguei este horário,
porque senão não teria como descansar, ir ao banheiro
ou mesmo esticar as pernas. O banheiro desse ônibus não
é para idosos com limitações como eu. Não
consigo utilizar-me do banheiro com o veículo em movimento"
explicou.
Nas
demais linhas feitas pela reportagem, Jundiaí - São
Paulo, Ribeirão Preto - São Paulo e São Paulo-Jundiaí,
as irregularidades também foram constatadas. Em todas,
o descumprimento da Portaria 20 foi notado. E, no caso da linha
Ribeirão Preto - São Paulo, feita na Rápido
Ribeirão, a Portaria 9, que se refere à parada obrigatória
em percursos acima de 170 quilômetros, também não
foi cumprida.
Salas
da Artesp estão sempre vazias
Outro
desrespeito aos usuários do transporte rodoviário
é a falta de informação nos terminais de
ônibus. Segundo a Cartilha do Usuário,publicada pela
Agência, e a disposição na internet, a ARTESP
mantém uma sala no Terminal da Barra Funda e outra no do
Tietê, ambos na Capital. O horário que a cartilha
menciona para atendimento ao público: das 6 às 23h30,
entretanto, a sala está sempre fechada e vários
funcionários do terminal informam que nunca viram ninguém
na sala. Em todas as vezes que o www.estradas.com.br esteve nos
terminais, no último ano, nunca encontrou nenhum funcionário
da Artesp.
Os
passageiros ficam sem ter a quem reclamar ou tirar dúvidas.
Com freqüência vão à sala da ANTT (Agência
Nacional de Transportes Terrestres), que fica bem próxima,
responsável pela fiscalização do transporte
interestadual, para buscar apoio. Como a ANTT mantém sempre
fiscais no local, recorrem ao órgão federal e tem
dificuldade de entender que eles nada podem fazer sobre linhas
intermunicipais.
Empresas
mudam rota sem autorização da Artesp que nada faz
O
diretor Geral da ARTESP, Ulisses Carraro, ao conceder entrevista
ao www.estradas.com.br, em novembro de 2003, quando ocupava o
cargo de diretor de Procedimentos e Logística, disse que
a ARTESP estava fazendo um teste com linha São Paulo-Ribeirão
Preto e São Paulo-Araraquara, com viagens sem parada mas
ônibus especiais.
Os
ônibus, segundo Carraro afirmou na época, e confirmou
em entrevista concedida em dezembro de 2004 ao portal, já
na condição de Diretor Geral da Artesp, fariam a
viagem direta porque utilizariam o prolongamento da rodovia dos
Bandeirantes, onde ainda não existe ponto de parada.
A
reportagem confirmou, que as linhas com destino a Ribeirão
Preto não fazem uso do prolongamento da Rodovia dos Bandeirantes.
Ou seja, todos os ônibus trafegam pela Bandeirantes até
o entroncamento com a Via Anhangüera, no km 103 e seguem
pela Anhanguera. O motivo é simples, com essa medida, reduzem
em 15 km o trajeto. "Nunca usamos o prolongamento",
reconheceu um motorista que não quis se identificar.
O
objetivo das empresas é apenas eliminar a parada, o que
permite aproveitar melhor a frota de ônibus, pois a redução
de 20 ou 30 minutos com a parada, multiplicado pelos horários
e motoristas, representa uma economia para as empresas, mesmo
que isso signifique maior risco para passageiros, motoristas e
usuários das rodovias.
Apesar
de estar informado que as empresas mudam a rota e não cumprem
o acordado, desde fevereiro deste ano, o Diretor Geral da Artesp
nada fez e a fiscalização também é
omissa. O que inverte a hierarquia do setor de transportes de
São Paulo, já que algumas empresas parecem ter o
poder de decidir a rota que será utilizada e mudam os esquemas
operacionais conforme sua conveniência.
Acidentes
aumentam devido ao cansaço dos motoristas
Segundo
dados da Polícia Militar Rodoviária de São
Paulo, o número de acidentes com ônibus e micro-ônibus
nas estradas cresceu 19%, em 2004, foram 3.520 acidentes. Já
o número de acidentes com automóveis foi de 6%,
praticamente 1/3 do crescimento dos acidentes com ônibus.
Segundo
levantamento feito pela Polícia Rodoviária Federal,
somente em 2004, nas estradas federais, que representam menos
de 40% da malha pavimentada do país, mais de 750 pessoas
morreram no local, em cerca de 7.800 acidentes de ônibus.
O
excesso de viagens e o tempo acima de duas horas ao volante contribuem
bastante para isso. De acordo com o médico Dr. Marco Túlio
de Mello, professor Adjunto II da Universidade Federal de São
Paulo (UNIFESP), lotado no Departamento de Psicobiologia, no Brasil
não existem estatísticas neste ponto, mas a nível
mundial a sonolência e conseqüentemente fadiga são
responsáveis por um percentual entre 26 a 32% dos acidentes
nas estradas.
O
especialista disse também que o ideal seria uma jornada
que não passe mais de 8 horas de trabalho, com descanso
a cada 2 horas, ou no máximo 3 horas, e com intervalos
entre uma jornada e outra de, no mínimo, 24 a 36 horas.
"A cada dia, observa-se nos noticiários mais e mais
acidentes envolvendo ônibus. Em muitos deles, o cansaço
do motorista é a causa pelas tragédias".
Segundo
a Vice-Presidente da Sociedade Brasileira do Sono, Gisele Minhoto,
os motoristas deveriam parar a cada duas horas de direção.
A medida vale para todos os motoristas. Segundo a especialista,
que desenvolve um trabalho de medicina do sono para a Itapemirim,
estima-se que a fadiga seja a segunda causa de acidentes nas estradas
brasileiras. O tema será objeto de debate do congresso
da entidade em novembro, no Paraná
O
Denatran já estuda medidas para criar exames especiais
para verificar as condições de fadiga dos motoristas
profissionais.
Reportagem:
Aderlei de Souza
Leia aqui a: Portaria
nº 9 e Portaria
nº 20