Dr.
Marco Túlio de Mello
Professor
Adjunto II da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), lotado
no Departamento de Psicobiologia. Foi professor da Universidade Federal
de Goiás, no Curso de Educação Física (Campus
Catalão) e posteriormente da Universidade Federal de Uberlândia,
também junto ao Curso de Educação Física,
ministrando as disciplinas de Fisiologia do Exercício e Treinamento
Desportivo. Durante esse período fez seu doutoramento na UNIFESP
(Universidade Federal de São Paulo) no Departamento de Psicobiologia,
sob a orientação do Prof. Dr. Sergio Tufik.
Atualmente, o Prof. Dr. Marco Túlio de Mello é Coordenador
do Centro de Estudos em Psicobiologia e Exercício (CEPE) e Diretor
Técnico do CENESP / UNIFESP.
Publicou vários artigos e estudos, dentre os quais destacamos
os que avaliaram as condições de fadiga dos motoristas
de ônibus de linhas interestaduais e intermunicipais e sua relação
com os acidentes nas
estradas.
Como
surgiu o interesse por estudar as condições de sono dos
motoristas rodoviários?
Surgiu
quando estávamos organizando minha tese de doutorado e teríamos
que trazer algumas pessoas portadoras de deficiência para SP e
quando fui pedir algumas passagens para uma Cia de ônibus ela
perguntou se não poderíamos ajudar neste problema e ai
começou tudo. Isso foi em 1994.
Nos
estudos realizados, quais foram às descobertas que mais o impressionaram?
A questão
dos motoristas assumirem que dormem ao volante (16%) e depois verificar
que na verdade não era 16% e sim 55% quando nos trouxemos os
motoristas para o laboratório do sono.
Os
motoristas que realizam viagens interestaduais e intermunicipais de
longa distância correm sério risco de acidente devido ao
excesso de jornada de trabalho. Sabemos que a jornada não começa
na hora em que o ônibus sai da rodoviária. Na sua avaliação,
qual seria a jornada de trabalho ideal desses profissionais e quanto
tempo de descanso para voltarem a dirigir?
Acredito
que a jornada não possa passar mais de 8 horas de trabalho com
descanso a cada 2 horas ou no máximo 3 horas e com intervalos
entre uma jornada e outra de no mínimo 24 horas a 36 horas.
Em
alguns países já estão limitando o número
de horas que o motorista deve dirigir sem efetuar uma parada para recuperar
os reflexos. No Brasil algumas empresas submetem os motoristas a dirigirem
muitas vezes de 4 até seis horas sem parar. Qual o risco que
isso representa?
Aumento
da fadiga, perda de reflexos, fadiga física aumentada, sonolência,
aumento da irritabilidade, problemas posturais com decorrência
de afastamento do trabalho, entre outras.
Algumas
empresas estão investindo cada vez mais em segurança e
na Medicina do Sono. Esse trabalho é um bom negócio em
termos financeiros?
Com certeza,
pois o retorno é totalmente garantido, não só financeiramente,
como também na satisfação dos funcionários
e dos passageiros.
O
senhor possui dados da redução de acidentes e resultados
concretos?
Sim! Só
para se ter idéia vou dar 2 exemplos:
a) Uma
empresa que tinha um custo fixo mês de 150 mil reais com pequenas
batidas, apos este trabalho isso passou para 30 mil mês, sem grandes
alterações no quadro de funcionários e com investimentos
baratos e simples.
b) Uma
outra empresa tinha um índice de 3,6 vitimas para cada 100 mil
Km percorridos em uma determinada rota. Apos o trabalho isso passou
para 0,6 vitimas a cada 100 mil Km rodados nesta rota.
Muitas
pessoas acreditam que as pessoas somente dormem ao volante dirigindo
a noite. Quais são os horários mais perigosos?
Com certeza
que não! Temos algumas portas para o sono, em geral estas grandes
janelas são entre 12:30 e 14 horas; das 22 as 23:30 e das 03:30
as 5 horas da manha. Isso no caso de não haver privação
de sono antecedente, ou seja o motorista está bem e não
esta dirigindo há mui,tas horas. Mas quando se está em
estado de privação do sono, ou seja, dirigindo por muito
tempo , estes períodos são constantes e não há
previsão de horários, pois em condição de
privação o organismo pede para dormir mesmo que esteja
trabalhando. ex. Sonhar de olho aberto, (quando a pessoa fala que freou
o ônibus ou o carro porque viu determinado acontecimento que não
existiu. Neste caso ela sonhou de olho aberto, ou seja, dormiu e sonhou!)
A
falta de alimentação causa sonolência ao volante?
Após quanto tempo de jejum?
A falta
de alimentação é totalmente prejudicial a saúde
em todas as situações, mas o excesso dela esta mais relacionado
a sonolência do que a sua falta.
E o excesso ou alimentação inadequada?
Neste caso
teremos uma diminuição de temperatura corporal, um aumento
de precursores de serotonina (um neurotransmissor indutor de sono e
da melatonina) e com isso a pessoa fica mais propensa a dormir. Por
isso é que alguns países adotam o cochilo apos o horário
do almoço. Isso seria muito bom para os motoristas! Melhoraria
muito sua performance!
Que
percentual de acidentes podem estar ocorrendo nas estradas brasileiras,
envolvendo todos os motoristas, causados por fadiga?
No Brasil
não existem estatísticas neste ponto, mas a nível
mundial a sonolência e conseqüentemente fadiga, são
responsáveis por uma percentual entre 26 a 32% dos acidentes
nas estradas.
No
seu entender, na elaboração dos esquemas operacionais
das linhas de transporte intermunicipal e interestadual, o poder concedente
não deveria ouvir médicos especializados em medicina de
tráfego e sono para que as viagens sejam feitas em condições
que o motorista suporte, garantindo a segurança de passageiros
e demais usuários das rodovias?
Com certeza,
pois temos leis muito antigas e as mesmas precisam ser alteradas. Caso
no processo de licitação de trechos fosse inserido o que
deve ou não ser feito nesta área seria um grande avanço.
Hoje estamos conseguindo inserir a Polissonografia como um exame obrigatório
para os motoristas profissionais que tiverem indícios clínicos
de algum distúrbio do sono, já é um grande avanço,
agora temos que ir mais adiante para diminuir a quantidade de acidentes
nas estradas. Pois as estradas brasileiras matam mais que qualquer guerra
recente e isso é um absurdo e nós (a população
e o governo) nos adaptamos a esta situação que nunca deveria
acontecer!
Veja
alguns estudos do Dr. Marco Túlio de Mello e seus colegas:
- Distúrbios
do sono, sonolência e acidentes de trânsito
- Sonolência
durante o horário de trabalho: um grande perigo para a ocorrência
de acidentes
- Sleep
and Sleepiness among Brazilian Shift-Working Bus Drivers
- Sleep
patterns and sleep-related complaints of Brazilian interstate bus drivers