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Somos consumidores ou cobaias

A convocação simultânea feita pela Fiat, Ford, GM e VW, em pleno Carnaval, para que os proprietários de vários modelos 2002 comparecessem as respectivas concessionárias a fim de checar o sistema de freios de seus veículos, revelou a ponta de um iceberg chamado recall, expressão inglesa que significa “chamar de volta”.
As montadoras vangloriam-se de seu controle de qualidade, certificados ISO e dos seus “rigorosos” testes. Então, como explicar que mais de 60 mil veículos, estão com freios sob suspeita, sem que nenhuma delas tenha detectado o problema, nem a Continental Teves, fabricante da peça defeituosa?
Poucos dias depois, a VW e Audi convocaram modelos VW e Audi A3 com freio ABS, para checagem. A Peugeot fez o mesmo com a van Boxer, pois o tanque de combustível poderia se soltar. E a Renault está chamando mais de 60 mil proprietários para checar os freios do Scénic e trocar as mangueiras de combustível de outros modelos, que podem vazar e incendiar o veículo.O recall da Renault surpreende, pois a empresa, em 1999 e 2000 , convocou proprietários de outros modelos para trocarem a mangueira de combustível. Por quê só agora vem convocar, pelo mesmo defeito, outros carros produzidos há mais de sete anos?
Ao analisarmos os recalls no Brasil, verificamos que ocorrem apenas quando são detectados problemas graves, que colocam em risco vidas humanas. Nos últimos dez anos, foram quase quatro milhões de veículos convocados. As empresas sempre informam que não têm conhecimento de nenhum acidente com vítimas graves, em função do possível defeito. Entretanto, vários processos na justiça revelam o contrário. A GM admitiu que duas pessoas podem ter morrido devido a falha no funcionamento do cinto de segurança do Corsa. A empresas fez acordo com a família das vítimas. A GM sabia do problema quase um ano antes e foi multada pela SDE -Secretaria de Direito Econômico em R$ 3 milhões, por omitir o defeito. O vice-presidente da GM, José Pinheiro Neto, justificou dizendo que não poderiam informar sobre o problema antes de ter a solução.
Além dos defeitos revelados pelas montadoras, existem os que não chegam ao conhecimento do público. É o chamado recall branco onde as montadoras informam sigilosamente as concessionárias sobre o defeito e orientam para trocar a peça, sem que ninguém tome conhecimento. É o caso da Mercedes Benz, com suas Ações de Saneamento, onde a empresa chega ao requinte de determinar a troca de peças que envolvem itens de segurança mas enfatiza “sem intermédio da mídia”.
Outro dado assustador é que não há registro de recall de autopeças. Como é possível convocar quase quatro milhões de veículos para checagem de peça defeituosa, e não existir recall de peças no mercado de reposição? O recall em curso, promovido pela Audi e pela VW, pode explicar a razão. As montadoras não quiseram revelar o fornecedor da peça defeituosa, o que já é hábito. O motivo é simples: muitas vezes o recall é fruto de erro de projeto da montadora e culpando o fornecedor a montadora poderá ser acusada por ele.
Tantos recalls registrados nos últimos anos revelam o temor das empresas com o Código do Consumidor. Antes da sua vigência , somente foram realizados dois recalls, em mais de 30 anos de produção de veículos no país. A lei prevê que o recall deve ser divulgado na mídia, mas as empresas aproveitam a generalidade da lei e divulgam o mínimo possível. Isto explica porque a Fiat reconheceu que apenas 41% dos mais de 300 mil proprietários de veículos convocados compareceram a um recall que já têm 14 meses de duração. A maioria dos proprietários sequer toma conhecimento do recall e a legislação não prevê cota mínima.
As montadoras justificam o recall dizendo que as convocações também ocorrem em outros países. Nos EUA, Inglaterra, Japão, Alemanha, contudo, há órgãos do Governo que investigam e fiscalizam as montadoras, que são obrigadas a fazer recall. No Brasil, dependemos que a empresa venha a público espontaneamente admitir seu erro. Nos EUA, montadoras têm sido multadas por defeitos de fabricação em centenas de milhões de dólares, o que no caso da Ford e Bridgestone Firestone, abalou seus alicerces financeiros. Aqui são raras as multas.
Entretanto, deve-se reconhecer que o Governo brasileiro já despertou para o problema. A Goodyear está sendo investigada por omitir defeito grave de pneus, pela SDE-Secretaria de Direito Econômico. A Mercedes Benz também está sendo investigada pelas Ações de Saneamento e dificilmente escapará de um multa inferior a R$ 3 milhões.
A Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara Federal está convocando várias montadoras para audiências públicas.
Apesar desses avanços, é preciso rever a legislação brasileira, impor multas mais graves, estabelecer cotas de comparecimento no recall, condenar executivos omissos e coniventes . Determinar que todas as concessionárias tenham a relação de veículos convocados para recall, independente do ano em que foi realizado. Para que o consumidor não compre um veículo com defeito, sem saber que ele precisa de checagem de um item de segurança. Os Detrans precisam dispor dessa informação, pois veículo convocado para recall, que não tenha comparecido a concessionária, não poderia estar licenciado e circulando.
A imprensa também deve investigar mais a questão, principalmente a especializada.
A RDE- Revista das Estradas e o www.estradas.com.br vem denunciando essa questão há anos. Os fruto estão aparecendo agora.
O consumidor também deve cumprir suas obrigações, comparecendo imediatamente para o recall, pois a checagem de itens de segurança diz respeito a todos os que circulam nas estradas e ruas.
Acima de tudo, precisamos criar mecanismos mais eficientes para fiscalizar as empresas, punir inclusive os executivos responsáveis, quando for o caso. No Japão, alto executivo da Mistsubishi cometeu haraquiri, quando descobriram que tinha conhecimento dos defeitos de fabricação dos veículos da montadora e os omitiu. Aqui, o único haraquiri tem sido do consumidor, com a fria máquina de calcular de alguns executivos. Fazem a conta de quanto irão gastar no recall, qual a possibilidade do defeito ser descoberto.O risco sendo grande, procede-se o recall, caso contrário: silêncio.
Está na hora da sociedade brasileira definir: somos consumidores ou cobaias.